Ser um de nós, sendo outro.

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Como falar de cultura?

O que é isto de comunicar cultura? Comunica-se cultura como se comunica tudo o resto? A cultura consegue chegar aos outros, ao outro, como lhe chegam a política, o comércio e os serviços vários que pululam (e, por vezes, poluem) a comunicação em que, quer queiramos ou não, somos parte?
Comunicar cultura é, antes de mais, falar de cultura não sendo um artista. Comunica-se programa, ideias, pessoas e egos e, claro, também agenda. Mas, comunicam-se sobretudo emoções. Comunicamos com e sobre uma intangibilidade que tentamos que possa ser, de algum modo tangível.
Como comunicamos com quem amamos sobre o que amamos.

Sem início, sem fim, mas com paladar.

Como muitas coisas na vida, sendo difícil de definir o que é, é facílimo definir o que não é. Comunicar cultura não é certamente comunicar produto. Quando se fala de cultura não se sabe onde exatamente onde começou, não se sabe geometricamente onde acaba, e, normalmente, é algo que ainda não se provou, que não se sabe precisamente o que é nem como pode ser vivido.

Ora, ainda assim, um profissional de comunicação só pode comunicar algo que existe, algo que tenha um qualquer referente com a realidade. Desde logo, não há comunicação cultural sem a tal realidade chamada cultura. Como não há cultura sem públicos nem sem discurso não autoral. Não há cultura sem o outro, sem ser outra, sem se despedir da autoria. Ora, a cultura começa justamente a despedir-se da autoria no momento da comunicação.

Sobre a esquizofrenia coerente.

A relação da comunicação cultural com a programação cultural implica perceber que públicos são os públicos da programação e da comunicação culturais. São os mesmos? Não são. A programação, só por si, fala para a comunidade de pertença. A comunicação tem que falar para todos e, até, de forma esquizofrénica: não dizer o mesmo a todos. E, no entanto, não dizer nada que seja incompatível com algo que já se disse ou venha a dizer. Cabe à comunicação cultural a magia de resolver o paradoxo de convocar o outro a partir de um eu que lhe é distante (a criação) e através de uma mediação (a comunicação) que adultera o eu e nunca pode ser apenas o que o outro já sabe ou conhece.

A verdade é o que se sente, não o que já se conhece.

E, porquê tudo isto, quando nunca se tem certeza de que o que se diz é o certo (o mais eficaz ou o mais verdadeiro, que nem sempre, aliás, são o mesmo)?
E, porquê tudo isto, quando, ainda que possa acreditar na adequação do que diz, não sabe como será ouvida, como será mediada, como convencerá e, correndo bem, como sobreviverá à confrontação com a criação.

Comunicação é, afinal e singelamente, como a vida: um exercício de permanente frustração, de consolos frequentes, de epifanias ocasionais e da certeza que o caminho é insistir. Consciente do que se faz. Sem certezas definitivas. E atento ao que o outro nos diz e aos efeitos do que o que dizemos tem no outro.

Não é uma profissão. É uma relação. Que é eterna, pelo menos, enquanto dura. Uma relação na qual, podendo todos sermos poetas, mais uma vez percebemos – com espanto e, ainda assim, crença – como no amor não se controla a teleologia, a legibilidade ou a verdade da poesia.

Lino Teixeira

Sobre o autor:

Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.