São Pantaleão – padroeiro do Porto durante quase 5 séculos

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Foto: José Luiz Bernardes Ribeiro

A 27 de julho o calendário litúrgico assinala o dia de Pantaleão de Nicomédia que – poucas pessoas saberão – foi o padroeiro da cidade do Porto até há poucos anos. Vamos saber mais desta história que cruza factos e lendas…

Diz a lenda que, ao raiar da alvorada do dia 8 de agosto de 1453, entrou na barra do Douro um barco de arménios. Eram cristãos que fugiam de Constantinopla, cidade que acabara de cair nas mãos dos turcos muçulmanos. Transportando as relíquias de São Pantaleão, o barco havia vogado pelo Mediterrâneo e pelo Atlântico, até que aportou a Miragaia. Bem recebidos pela população local, aqui se decidiram fixar, depositando as relíquias sagradas na igreja de São Pedro de Miragaia.

Rapidamente se propagou a fama do santo milagreiro, especialmente eficaz no que diz respeito à cura de pestes. Lembremo-nos que, entre meados do século XV e finais do seguinte, registaram-se no Porto 24 surtos epidémicos.

O pequeno templo de Miragaia tornou-se local de peregrinações, não só das redondezas, mas dos habitantes de todo o reino. O próprio rei D. João II, em 1483, fez questão de visitar as relíquias e, em testamento, deixar expressa a vontade de fazer um relicário para guardar condignamente as santas ossadas.

A 12 de dezembro de 1499, o bispo D. Diogo de Sousa – que, mais tarde, seria arcebispo de Braga – decidiu trasladar as relíquias para a Sé, deixando em Miragaia apenas um osso do braço num relicário de prata. Em 1502, a caminho de Santiago de Compostela, o rei D. Manuel I demora-se no Porto para venerar as relíquias na Sé. É neste contexto que São Pantaleão é elevado a padroeiro da cidade.

Pantaleão de Nicomédia

Foto: Graeme Churchard

Pantaleão viveu entre os séculos III e IV. Estudou medicina e tornou-se médico pessoal do imperador Maximiano. Converteu-se ao cristianismo e acabou por ser preso e torturado. Acabou martirizado por decapitação em Nicomédia (hoje a cidade de Izmit, na Turquia) no ano de 305.

De acordo com a hagiografia, Pantaleão começou por ser condenado a morrer na fogueira, mas as chamas foram miraculosamente extintas. Em seguida, foi mergulhado em chumbo derretido, mas o chumbo esfriou e solidificou repentinamente. Foi depois atirado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço, mas a pedra começou a flutuar. Foi atirado às feras que, de repente, ficaram mansas e dóceis. Foi amarrado a uma roda, mas as cordas romperam-se e a roda partiu-se. Foi feita uma tentativa para decapitá-lo, mas a espada curvou-se. Pantaleão orou a Deus para que perdoasse os seus carrascos. E só após o seu consentimento, foi possível decapitá-lo, escorrendo do pescoço não sangue, mas leite.

Os restos mortais de Pantaleão de Nicomédia foram levados para Constantinopla, onde foi construído um templo em sua honra. Alegadas curas milagrosas de várias doenças deram início a um culto às suas relíquias. A ocupação de Constantinopla pelos turcos em 1453 levou à dispersão das relíquias do santo. Hoje em dia, várias cidades reclamarem detê-las: Colónia, na Alemanha; Troyes, em França; Luca e Veneza, em Itália, entre outras.

Verdade e lenda

Foto: Liam Geoghegan

Na verdade, não existem provas documentais que confirmem a veracidade da lenda dos arménios foragidos que trouxeram São Pantaleão para o Porto. O mais antigo documento que refere a presença das relíquias em Miragaia data de 1492 e não tem qualquer referência a arménios. A lenda, com os contornos hoje conhecidos, foi relatada pela primeira vez em 1623 pelo bispo do Porto, D. Rodrigo da Cunha.

O fenómeno de São Pantaleão só pode ser compreendido se tivermos em consideração que, nos finais do século XV, o Porto procurava afirmar-se como um importante centro mercantil. Ora, o prestígio de uma cidade media-se pela altivez das suas muralhas, pela opulência das suas igrejas, pela quantidade e proveniência das embarcações que a demandavam e também, e não menos importante, pelas relíquias de santos que possuía. É claro que nunca se chegaria ao prestígio de Compostela, mas, com a chegada de São Pantaleão, o Porto estaria em igualdade com Lisboa – que já albergava as relíquias de São Vicente de Saragoça – e com outras grandes cidades europeias. No século XVIII, o escritor e historiador António Caetano de Sousa (1674-1759) escrevia: «o primeiro motivo de hoje ser tão populosa e rica esta cidade do Porto, em que floresce tanto o comércio como seus moradores, que a fez a segunda do reino, se deve à gloriosa posse do corpo de São Pantaleão, seu padroeiro, por quem Deus nosso senhor tem obrado naquela cidade infinitos milagres, principalmente no tempo da peste, de que tem defendido por muitas vezes esta cidade».

A maior parte das relíquias de Pantaleão foi guardada na urna mandada fazer por D. João II, depositada no altar-mor da Sé do Porto e que acabou por ser roubada em 1841, desconhecendo-se por completo o seu paradeiro. Um braço-relicário de prata, contendo um pequeno osso, ficou na igreja de São Pedro de Miragaia. Um pedaço do crânio foi parar a um busto-relicário, usado para a visita a enfermos, e que agora se conserva no Museu Nacional Soares dos Reis.

Até 1910, a festa de São Pantaleão, a 27 de julho, comemorava-se sempre com grande procissão, na qual tinha participação ativa a classe médica, da qual o santo é também patrono. Com a implantação da República, o costume foi caindo em desuso. Em 1952 foi feita uma tentativa para repor a velha tradição com uma procissão que contou com muita adesão, mas não teve sequência nos anos posteriores. A verdade é que quando, em 1964, Nossa Senhora de Vandoma foi proclamada padroeira da cidade do Porto, para a maioria dos portuenses, São Pantaleão não passava já de um ilustre desconhecido.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.