São Bartolomeu na Foz do Douro

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Morreu esfolado na Turquia há quase dois mil anos e hoje inspira uma curiosa celebração, celebrada todos os anos em agosto. Trajes de papel que se desafazem a cada mergulho nas águas de Atlântico, num ritual que junta o sagrado e o pagão, na Foz do Douro. Vamos saber mais…

Wolfgang Sauber

No rito católico romano, 24 de agosto assinala o dia de São Bartolomeu, um dos doze apóstolos de Jesus.

Segundo a tradição, Bartolomeu foi missionário na Índia, na Arménia e na Pérsia e morreu mártir. Há três versões sobre a sua morte.

Algumas fontes narram que foi espancado até ficar inconsciente e atirado ao mar, tendo morrido afogado. Outra versão refere que foi crucificado. Por último, há ainda os que aludem que acabou os seus dias esfolado vivo e decapitado na Turquia.

O mártir esfolado é o que mais tem sido representado por pintores e escultores. Por isso, São Bartolomeu é frequentemente apresentando com uma faca na mão e segurando a sua própria pele – tal como acontece, por exemplo, no “Juízo Final”, pintado por Miguel Ângelo no teto da Capela Sistina, no século XVI. Curiosamente, São Bartolomeu é o padroeiro dos curtidores, sapateiros, luveiros, encadernadores, talhantes e estucadores.

No Porto, o santo mártir é todos os anos lembrado na Foz do Douro, com uma grande dose de animação.

A tradição remonta ao século XVI, quando as populações locais tomavam banhos na expectativa de curar doenças, como a gaguez, a gota ou a epilepsia. Oficialmente, as festas de São Bartolomeu existem desde o século XIX.

As festas em honra de São Bartolomeu têm como ponto alto o cortejo do Traje de Papel. Centenas de pessoas vestem-se a rigor com trajes totalmente feitos de papel, desfilando entre a Cantareira e a praia do Ourigo, num percurso de pouco mais de um quilómetro. Chegados à praia, os participantes mergulham nas águas do mar, no ritual do “banho santo”.

Manda a tradição que o ritual “banho santo” inclua sempre sete mergulhos por cada banho no mar. Só mantendo escrupulosamente este preceito os participantes poderão agradecer os “favores” de São Bartolomeu e esperar amplos benefícios de cura e proteção proporcionados pelo santo para no ano seguinte.

Andreas Praefcke

As festas em honra de São Bartolomeu são dos eventos mais originais da cidade e do país e uma tradição única no mundo que, a cada ano, atrai um número sempre crescente de participantes, tanto portugueses como estrangeiros.

Vale a pena ir à Foz do Douro para, mais do que assistir, tomar parte neste tradição ancestral que junta o sagrado e o pagão.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.