Sá das Galés, o primeiro “presidente da câmara” do Porto

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Chamava-se João Rodrigues de Sá e nasceu no Porto em 1355, filho de Rodrigo Anes de Sá e da sua segunda mulher, Cecília Colonna.

O seu pai, entre outros cargos, tinha sido embaixador de Portugal em Roma, onde conheceu Cecília Colonna, com quem casou em segunda núpcias. Cecília era neta de Giacomo “Sciarra” Colonna – “sciarra”, na linguagem popular da época, significava “duro” –, militar italiano que ficou famoso por ter bofeteado o papa Bonifácio VIII, num episódio conhecido como o Atentado de Anagni. Cecília Colonna era, também, prima de Agapito Colonna, que desempenhou vários cargos eclesiásticos em Itália, Boémia, Castela e Portugal, nomeadamente, foi bispo de Lisboa entre 1371 e 1380.

O das Galés

Durante a crise dinástica de 1383-85 em Portugal, João Rodrigues de Sá foi apoiante ativo do partido de D. João, mestre de Avis.

Homem destemido, em 1384, João Rodrigues de Sá lutou com sucesso contra as galés castelhanas que cercavam Lisboa, rompendo o cerco e levando do Porto os tão necessários mantimentos à população de Lisboa. O cerco castelhano acabou por ser levantado e João Rodrigues de Sá, ascendendo ao estatuto de herói nacional, passou a ser conhecido como o “Sá das Galés”.

No ano seguinte, o Sá das Galés destacou-se também na batalha de Aljubarrota, lutando nas hostes do Mestre de Avis que, por essa altura, já havida sido coroado rei de Portugal, o primeiro monarca da segunda dinastia.

Assegurado o trono, D. João I encarrega o Sá das Galés de uma outra missão, não menos espinhosa: obter permissão papal para poder contrair matrimónio, a que estava impossibilitado pelo facto de ser mestre e cavaleiro professo da Ordem de Avis. Deslocando-se a Roma, após difíceis negociações, João Rodrigues de Sá consegue do papa Bonifácio IX a tão desejada autorização. D. João I e D. Filipa de Lencastre casam-se na Sé do Porto, em 1387, fortalecendo, pelos laços familiares, os tratados luso-britânicos de aliança que perduram até hoje.

No entanto, o feito que mais interessa à nossa história só o conseguiu um pouco mais tarde. A 21 de fevereiro de 1392, João Rodrigues de Sá ascendeu ao cargo de alcaide-mor da cidade do Porto. No entanto, a nomeação foi apenas formal porque só pôde assumir o cargo vários anos depois, num o processo que esteve muito longe de ser simples.

Como sabemos, quase 300 anos antes, a mãe de D. Afonso Henriques, D. Teresa, tinha feito a doação do burgo e do couto do Porto ao bispo D. Hugo e seus sucessores. Mas, na verdade, a relação entre os sucessivos bispos do Porto e a população portuense quase nunca foi pacífica.

Cidade excomungada

Os diferendos começaram logo pela própria definição dos limites exatos do couto outorgado por D. Teresa. O rei D. Afonso IV insistia que o rio da Vila constituía o limite poente e, malgrado os protestos do bispo, mandou erguer a alfândega régia (hoje Casa do Infante) em pleno território de litígio. O conflito agudiza-se, opondo mercadores, proprietários de navios, ourives, cambistas e agentes do fisco ao cabido. A hostilidade aberta aos bispos dá origem a diversos motins populares que levam a mortes. Por mais que uma vez, bispos fogem do Porto, temendo pela sua vida, e lançam interditos sobre a cidade e todo o bispado. Da última vez, esta situação insólita prolongou-se durante mais de meio século.

A adesão precoce e entusiástica do Porto à causa do mestre de Avis terá contribuído para um envolvimento direto do jovem rei D. João I na resolução definitiva do problema. Era bispo do Porto D. Gil Alma que compreendeu que seria impossível continuar a manter o couto do Porto, perante a tenaz oposição da sua população, secundada pelo próprio rei, que não recuavam nem perante a excomunhão.

Os portuenses aspiravam a depender apenas da Coroa, cientes de que essa seria a melhor forma de garantir as suas liberdades e os seus interesses. Uma cidade comercial e burguesa dificilmente poderia singrar continuando sujeita ao regime jurisdicional episcopal, mais próprio das comunidades rurais.

Autonomia municipal

As negociações iniciaram-se a 13 de fevereiro de 1405 em Montemor-o-Novo. O rei D. João I e o bispo D. Gil Alma assinaram um acordo, segundo o qual o bispo cedia os direitos administrativos que exercia sobre a cidade e o rei, a título de compensação, pagaria uma quantia anual, estabelecida em três mil libras.

As rendas da alfândega régia e o dinheiro dos foros que o rei recebia das casas que possuía no Porto seriam usados para assegurar o pagamento ao bispo. No entanto, este sistema manter-se-ia apenas até à conclusão da Rua Nova (a atual Rua do Infante D. Henrique) que, na altura, estava a ser rasgada. D. João I comprometia-se a ceder ao bispo, nesse novo arruamento, as casas que fossem necessárias até perfazer o valor acordado da indemnização. Ou seja, a transferência da cidade para o rei seria paga apenas com dinheiro proveniente da própria cidade.

O papa Inocêncio VI deu a sua anuência ao acordo a 9 de outubro de 1405, sendo a escritura pública de transferência da jurisdição da cidade formalmente assinada a 13 de abril de 1406, no Paço Real de Santarém.

Há 611 anos, João Rodrigues de Sá, o Sá das Galés, pôde finalmente assumir o cargo de alcaide-mor da cidade, dando início a uma longa sucessão de autarcas que são o garante da manutenção e do reforço da autonomia municipal do Porto.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.