O Regresso da “Cultura” à “Cidade”.

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

A Cidade como Habitat (in)orgânico.

Na cidade inscrevem-se mapas, leituras e circuitos que moldam o seu carácter, o seu rosto e o seu poder. Seja ao nível político, social, económico e, naturalmente, seja também no que à cultura diz respeito, a cidade transporta em si uma matéria física, orgânica e anímica que é, simultaneamente toda a sua herança histórica, grande parte da sua definição presente e, irredutivelmente, uma porção da sua ambição futura.
As cidades, como os países e a humanidade, têm em si inscrita a consciência que “longos dias têm 100 anos”.
Como territórios físicos, porém dinâmicos; históricos, porém vivos; e confinados; porém abertos, as cidades constroem-se e medem-se neste longo prazo, mas sentem-se e afirmam-se em cada um dos dias que compõem o curto-prazo. Por isso, as cidades, como as pessoas e as ideias que as habitam, transportam em si a vivência que “longos anos têm 100 dias”.

A Cultura como Política.

Durante mais de uma década, a cidade que é a nossa – o Porto – tinha a cultura ausente do seu léxico, da sua orgânica e, quase totalmente, ausente da sua prática política.
A nova maioria, por seu lado, definiu a cultura como um eixo central da sua ação política, evidentemente não por ser aquele com maior dotação orçamental ou de recursos humanos (nunca o poderia ser), mas por ser transversal a toda a construção e afirmação da cidade e assim ser lido como um essencial instrumento de coesão social capaz de “colar”, como nenhum outro instrumento político ou cívico o poderia fazer, a comunidade e o território que ela habita e lê como seu.
Dito de outra forma, assumiu a cultura como o primeiro instrumento político para reforçar a ligação da cidade e dos seus cidadãos, tornando ambos um corpo que adicionado e simbiótico não se limita a somar as partes, mas antes a ampliar continuamente a soma do potencial da cidade à cidadania e ambição dos seus cidadãos e, factor de força decisivo, às ideias que habitam a primeira e interpelam os segundos e que, assim e em conjunto, expandem a narrativa da cidade num sentido de cosmopolitismo que não é antagónico do comunitarismo.
Dito igualmente de outra forma, com a cultura como instrumento transversal de ação política, a cidade não só pode ser mais coesa, como pode ser mais cosmopolita e mais vivida – nessa coesão e nesse cosmopolitismo – pelas diferentes comunidades que a habitam como pelas que lhe são exteriores e que a procuram crescentemente.

Um bolo sem fatias.

O “regresso” da Cultura à Cidade, na autoria que perdura do pensador – intemporal porque sempre além do seu tempo – Paulo Cunha e Silva, provou bem como as disciplinas culturais não são apenas parte segmentada de um bolo maior, mas que elas próprias são contaminadas e contaminam esse bolo maior chamado cultura e que tanto o tornam maior e mais imprescindível para todos quanto expandem as suas margens, cruzando arte e pensamento fazendo conviver risco e rigor, ou seja, sendo cosmopolita e, por isso e não apesar disso, legível e expansível no campo semântico e conceptual que a cultura forçosamente questiona.

Lino Teixeira

Sobre o autor:

Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.