Meu querido mês de agosto.

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

 

A Cidade Turista

É, hoje, quase impossível ouvir uma cidade a falar de si própria sem falar do “seu” turismo, tanto quanto impossível é ouvir o turismo, fora do verão das praias e do inverno da neve, falar de si sem falar das “suas” cidades.

Ao mesmo tempo, uma e outro falam, sempre que podem, de cultura, como uma espécie de atributo suficiente para dar sentido à cidade turística que se assim apresenta ou para acrescentar valor ao turismo citadino que se promove.

Este discurso, necessário que seja, tende a esquecer – ou, pelo menos, a colocar em segundo plano – os que são turistas o ano inteiro (os cidadãos) e, que, em bom número, consomem cultura o ano inteiro. No outro lado da moeda, este discurso coloca no centro o turista como desejo e a cidade turística como destino, ambos idealizados e ambos revestidos de uma pele cultural que é anunciada como indo muito além da vivência ou experiência de conhecer uma cidade.

A Cidade Culta

Ora, sucede que uma cidade conhece-se com tanto interesse quanto aquilo que determina que se queira conhecer uma pessoa. A sua beleza certamente, mas também o seu feitio e a forma como ela ocupa os seus dias e noites. Ou seja, aquilo que ela tem para contar sobre si e aquilo que ela faz por si.

Assim, se uma cidade é bela e tem um feitio interessante, se é ativa e coerente com a forma como se descreve, se é no verão que ela recebe mais gente de fora e se é no verão que esta gente de fora se junta à gente que a habita e dela sai cada vez menos em romaria sazonal às praias tépidas não atlânticas, porque diz tão pouco a cidade cultural que também é turística da cultura que é a sua quando mais e mais diversa gente tem para a ouvir?

Chegamos ao querido mês e agosto e há o cinema dos shoppings com programação visível em qualquer cidade e há a esforçada e sempre interessante programação da Medeia Filmes no Teatro do Campo Alegre e há o refrescante “cinema fora do sítio”.

A Cidade do Estio

Assim. temos que o Porto em agosto é uma cidade turística, bela e com um feitio interessante, como no resto do ano. Não podemos é dizer que seja, pelo menos em agosto, uma cidade cultural. Pelo menos tanto quanto o é – e bem, muito bem – no resto do ano.

Para quem cá vem e para quem de cá não sai.
Não sendo o Porto caso único nesta miopia, não seria pior que percebesse a oportunidade que tem de ocupar este espaço vazio. Na competição entre cidades, não há espaços vazios.

No Porto, a Livraria Lello não vai a banhos. Dá sombra e fresco a todos os que gostam de dela partir com novos livros na mão, que serão, já a seguir, lidos parte noutras sombras e com outros frescos, e parte ao sol que nos faz menos pálidos e ao calor que aconchega a nossa humanidade.

Lino Teixeira

Sobre o autor:

Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.