Porto São Bento. Os Carris na Escarpa.

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Foto: Sara Santos

Porto São Bento

Os Carris na Escarpa.

Se chegar com a sua vinda sobre carris, passa em Campanhã.
E a Campanhã aqui voltaremos. Mais tarde.
Por agora não se instale. São só 5 minutos.
Aproveite o primeiro túnel para se preparar.
Para ver o que nunca viu.

Ver o rio Douro, bem lá em baixo, numa paisagem bucólica que, no entanto, é já bem no meio da cidade contínua que Porto e Gaia desenham em torno deste rio único.

Mais dois túneis e, aí sim, aí então, chega onde merece chegar.
Chega ao Centro do Porto.

Não corra ainda. Demore-se. Estacione na Estação.
Mas, por sedutor que seja, e sabemo-lo bem como o é, correr para viver ou reviver a cidade da escala perfeita, a cidade onde o presente não tapa nada do passado nem exclui nada do futuro, não corra ainda.

Está onde já esteve um antigo convento que perdoou o pecado do seu novo destino não religioso por perceber que a beleza dita divina se realiza de muitas formas.
E esta chegada ao Porto, a Porto São Bento, é, para crentes e não crentes, uma beleza de ordem indiscutivelmente divina.

Demore-se e demore-se muito em Porto São Bento.
Veja as pessoas, primeiro.
Quem passa e quem corre.
Veja como são autênticas, como, simultaneamente, carregam a urgência da vida contemporânea e, ainda assim, se demoram sempre um instante para olhar de novo para Porto São Bento, como se aí encontrassem alimento para chegar para onde correm, para chegar ao coração vibrante da cidade.

Já viu, há qualquer coisa de autêntico nestas pessoas, que ainda não conhece, não há?

Olhar e ver Porto São Bento.
Mas antes, São Bento precisa de si.
São Bento é demasiado preciosa para que não a veja e não a respire.
Ainda na plataforma, olhe para cima e veja os pássaros e fazerem de São Bento a sua estação onde retemperam forças.

Ao vê-los, admirará a magnífica cobertura gigante em vidro que nos abriga da chuva e que modera o sol enquanto esperamos sair do Porto (para logo voltar), ou quendo esperamos que de quem gostamos chegue também ao nosso Porto e aí nos abrace.

Ao descer com o olhar, verá certamente a entrada para os túneis que acabou de percorrer e como ela revela que estamos perante uma cidade e uma região que sabem bem que a vida não é fácil; que tudo o que desce, tem de subir; que este rio, este vale, esta cidade, não seriam os mesmos se tudo fosse plano, imediatamente acessível, sem o relevo das coisas conquistadas.

Um Átrio Monumental para a Cidade Pessoal.
Já ficou com uma ideia bem presente de quão nuclear sempre foi esta Estação na vida do Porto?
Na vida de hoje, como na vida de outrora?

Pois, agora entre no magnificente e absolutamente único átrio da Estação de Porto São Bento e pare. Bem no meio.
Agora faça o mais simples que é, no entanto, o que o traz cá, o que fez com que cá chegue, que connosco esteja. Olhe e veja.

Já viu? Estão por todo o lado.
À sua esquerda, à sua direita, em cima e em baixo.
Esse branco e azul todo… Essa delicadeza do traço e essa leveza da imagem…

São estes os mundialmente famosos azulejos que, há bem mais de um século, Porto São Bento exibe orgulhosamente, cristalizando num belíssimo espaço, um belo tempo em que a vida em todas as regiões do Norte que chegavam ao Porto em Porto São Bento, se unia na semelhança de viver a partir da e para a terra e na diferença de, para o fazer, o fazer de forma muito distinta entre si.

Chegou? Sente-se chegado? Ainda agora está connosco e já percebeu como terá que cá voltar, não é?
Agora que cá chegou, não se limite a estar no Porto.
Seja no Porto.
Mais do que visitar, viva-nos.
Já lhe damos a mão, para connosco subir de Porto São Bento aos Clérigos e à Lello e continuar a viver o Porto, à Porto, com o Porto.
No seu Porto, a sua cidade pessoal.

Lino Teixeira

Sobre o autor:

Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.