Porto: de onde houve nome Portugal

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Todos sabem que Portugal provém do Condado Portucalense, que foi buscar o nome a Portucale, a antiga designação do Porto. Mas se o território original incluía Guimarães – considerada por todos como o “berço da nacionalidade” – e Braga – herdeira da romana Bracara Augusta e cujo prelado ostenta orgulhosamente o título de “Primaz das Espanhas” –, por que razão tanto o condado como o reino e país foram buscar o nome à pequena povoação portuense e não a outro núcleo supostamente mais importante? Vamos saber mais…

Cale e Portus Cale

No século III da nossa era, o imperador romano Diocleciano criou a província da Galécia que, tendo o rio Douro como limite sul, incluía os atuais Norte de Portugal, Galiza e parte das Astúrias.

Alguns séculos mais tarde, dá-se a ocupação muçulmana da Península Ibérica, iniciada em 711, que, no entanto, não se traduziu numa presença duradoura nas regiões peninsulares mais setentrionais. De tal forma que, em 868, um chefe militar galego de seu nome Vímara Peres liberta a região junto à foz do rio Douro do domínio muçulmano, fundando o condado portucalense, integrado na monarquia leonesa.

O condado portucalense correspondia sensivelmente ao Entre-Douro-e-Minho, destacando-se da Galiza, mais a norte, tendo o pequeno povoado de Portucale como centro.

A povoação que deu nome ao condado, localizada a pouca distância da foz do rio Douro, tinha originalmente a designação de Cale. Mas, nem a localização exata deste lugar, nem a origem deste topónimo são consensuais. O nome poderá vir do grego “kalós” (que significa “belo”), ou da palavra celta que significa “porto”, “enseada” ou “abrigo”, ou até de Cailleach, figura mitológica gaélica. Outra explicação é a de que o nome deriva dos povos de cultura castreja que habitariam esta área nos tempos pré-romanos – os calaicos ou galaicos –, do qual derivou o nome Galécia e, hoje, Galiza.

Seja como for, com a romanização, o nome original passou a ser precedido de Portus, indicando, em latim, o caráter portuário do local, ou seja: Portus Cale.

O rei visigodo Leovigildo e seus sucessores cunharam aqui moeda com a legenda “Portucale”. Forma que já nos surge como “Portugale” em documentos do século VII para o VIII.

Com a tomada por Vímara Peres, a diocese de Portucale foi rapidamente restaurada – antes da de Braga –, talvez correspondendo ao propósito de criar um núcleo cristão forte na estrema das terras conquistadas. A população do lugar é incrementada com o contributo de cristãos de Coimbra, entretanto retomada pelos muçulmanos. Segregado da Galiza, Portucale vai-se desenvolver segundo uma evolução própria e local. Pouco depois, o território começou a ultrapassar o da sua diocese.

“Terra portucalense” ou apenas “Portucale”, “Portugale” ou Portugal passa a ter uma aceção vasta, já na primeira metade do século X, abrangendo todos os territórios a sul do rio Lima e a oeste do Tâmega. A partir de finais do século X e com Gonçalo Mendes da Maia – o Lidador –, os condes portucalenses passaram a usar o título de duques, indicando uma maior importância e extensão territorial.

Limites que são alargados, na segunda metade do século XI, para o rio Minho, a norte; o Vouga, a sul; e o Coa, a leste. Apesar de alguns laivos separatistas, o território foi reagrupado no reino da Galiza em 1071, passando Garcia a intitular-se “Rex Portugalliae et Galleciae” (rei de Portugal e da Galiza), pouco depois absorvido novamente pelo reino de Leão.

De condado portucalense a reino de Portugal

O Condado Portucalense reemergiu, em 1096 pela mão de Henrique de Borgonha como oferta do rei Afonso VI de Leão pelo auxílio na Reconquista de terras aos mouros, a quem deveria prestar vassalagem, tendo também recebido a mão de sua filha, a infanta D. Teresa de Leão. A “Terra de Portugal” foi concedida como dote hereditário de D. Teresa.

Afastados do centro do poder do reino de Leão, vai-se desenvolvendo um espírito autonomista, com os cavaleiros locais a desinteressarem-se da Cúria de Leão e a ambicionarem mais poder e terras a sul. Por seu lado, a igreja organiza-se em torno de Braga, contra as pretensões hegemónicas de Toledo e de Compostela.

Partilhando uma língua comum com a Galiza, Portugal autonomiza-se politicamente e organiza-se, tendo Guimarães como corte dos condes, Braga como metrópole eclesiástica, o Porto – onde a função portuária apaga o segundo elemento do nome (Cale) – e Coimbra, baluarte na luta contra do sul muçulmano.

Estavam lançadas as bases do país que se expande para sul. Mas o Porto ficará para sempre, como refere Luís de Camões, como «a leal cidade donde teve origem (como é fama) o nome eterno de Portugal».

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.