Porto de ouro

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

 A Livraria Lello são muitos Lugares

A Livraria Lello é um lugar que são muitos lugares.
É lugar de passagem que logo se ergue como lugar de paragem.
Demorada. Para ver, sentir, ouvir e ler.
Por ser um lugar que se lê e a partir do qual se lê e que, ainda, antes de aí entrar, sobre ele se lê, é um lugar de chegada, tanto quanto o é de partida.
Um lugar intenso, pela beleza sensorial que nos envolve, como pelos aromas sentimentais que nos invoca.
É um lugar cheio, porque tantos como nós – e tantos diferentes de nós – aí encontram o seu espelho de consolação.
E sabemos todos demasiado bem como a beleza é um lugar de consolação.
Por ser um lugar assim cheio, é um lugar do qual se parte.
Para aí chegar novamente, claro.

A Livraria Lello é o Lugar da Letra “L”
Enquanto dele se parte e a ele não se chega, a ele – a este lugar mágico escrito com vários “l” (“L“ de Livraria, “L” de Lello e, sobretudo, “L” de Livro e de Ler) -levamos connosco.
Dentro da mochila. Debaixo do braço. Apertado na mão.
Sempre no coração.
Lavámo-lo com lombada, capa e contra capa.
Com páginas de letras e imagens que libertam as ideias que são as nossas, mas que só agra, que as lemos, podemos adotar como nossas.
Levêmo-lo pois.
Levemos a Lello connosco enquanto Livro Lello.
Que é belo. Como só os livros e as livrarias sabem ser.
Vai na nossa mão enquanto descemos os clérigos, virámos à direita e olhámos à esquerda para nos lembrarmos do Porto São Bento de que aqui se fala com vagar. E com lugar.
Continuamos a descer, ainda com o Livro Lello fechado, de mão apertada na nossa.

A Amplitude Primeira

Chegamos ao Infante e apanhamos o velho elétrico nº 1. O primeiro.
Primeiro porque antigo e primeiro porque, vindo do passado, apresenta-nos o futuro.
O futuro com tempo, com ruído, com sabor, com janelas amplas, sem trânsito e sem fumo.
Ah, e com bancos rebatíveis para irmos sempre no sentido da marcha, se a marcha quisermos encarar defronte. Porque se a ela quisermos voltar as costas, este elétrico chamado desejo permite-nos a ousadia. Ou a nostalgia.
Sentámo-nos bem à esquerda.
Não por uma qualquer preferência política mas, singelamente neste caso, por uma maior amplitude paisagista. A amplitude de ouro. Do Douro.
Sorrimos a ver este rio que Douro, de Ouro e que, desde sempre e para sempre, desagua no Porto uvas, vinhos, cerejas, amêndoas, pedras e cheiros que vêm de lá muito de dentro. E de lá muito de alto.
Um Passeio Alegre
Não podemos deixar de seguir sorrindo quando nos lembramos do destino deste Elétrico, que além de paragem última, sintetiza com perfeição todo este percurso. O que fazemos agora e o que o Douro faz ao nosso lado. Desde sempre e para sempre.
Passeio Alegre.
E passeio que nos faz ser um dos alegres. Com o gosto que só a alegria nos dá.
E não, não vai ser hoje que chegamos a este nosso destino.
Vamos sair a meio, como sábio ensaio de perdurar as coisas boas que a vida , por causa de nós ou apesar de nós, insiste em nos brindar.
Aqui e ali. De ora em vez.
Ficámos a meio e saímos no Ouro.

O Ouro Douro
Simplesmente assim. No Ouro. Largo do.
Mas basta Ouro, que é assim que os amigos que o conhecem. E são amigos todos os que aqui vêm.
Também aqui não ficaremos. Por hoje apenas.
E motivos não faltam para aqui ficarmos. Amanhã e depois.
Cá voltaremos.
Como o Carteiro que aqui mora e aqui volta cada dia. Ou o Siza, que por aqui anda muitos desses dias. Que ande muitos mais. Gostamos tanto dele quanto ele gosta de nós. E do Ouro.
Com audácia e apenas porque sabemos que é um “até já”, ousamos voltar as costas ao Ouro.
E olhar de frente para o Douro.
Ficamos uns bons minutos a olhar.
Como se olhar e mar se fundissem neste “Ouro” largo que aqui abre o Douro.
Tão largo que precisa de um arco dos mais belos para suportar a mais granítica da mais granítica cidade. O granito que se escreve Porto.
Ao olhar, vemos e reparamos.

Uma Flor que Flutua a Gás
E reparamos não num barco de cruzeiro que tantos rios têm. Ainda que os nossos sejam mais bonitos, é evidente.
Também não vemos nenhum ferry boat. Não precisamos. Porque o Porto é, em muita largueza e ainda mais largura, uma cidade de pontes.
Vemos sim, um pequeno barco. Quase um bote. Quase de brincar.
Coo se fosse uma flor que flutua no rio desde sempre, desde, por exemplo, que tudo se alumiava e andava a gás.
E, quando se aproxima de nós, vemos mesmo que é disso que se trata.
De uma “Flor do Gás”, como orgulhosamente ostenta no seu casco.
Damos – ainda a sorrir, lembram-se?- a moeda simbólica que se dá em todas as travessias. Desde sempre e para sempre.
Como se essa moeda, mais do que a viagem, pagasse a passagem.
A ideia que estamos apenas aqui de passagem. E aqui e agora, a passar de uma margem para outra.
E de um mundo para outro.

A Afurada Amada a Olhar o Amado Eugénio
De um cidade que tem Porto como chamada para uma vila de pescadores que é profundamente amada. Estamos na Afurada.
Onde comemos o peixe que se descarrega ali ao lado.
De onde se vê o Porto que já não sendo o Porto histórico e, no entanto, é um Porto pleno de história.
E dali, olhamos para aqui e reparamos que na mão continuamos a apertar algo que nos dá a segurança da melhor das melhores companhias.
E sentamo-nos à margem da Afurada, olhos postos na Arrábida, enquanto olhamos logo de seguida à esquerda e nos lembramos – passando do sorriso do conforto subtil ao riso amplo que só nos assoma quando o mundo conspira a nosso favor – que, do outro lado e mesmo já ali, está a casa daquele que levamos pela mão.
A casa do Eugénio.
Do simples e genial Eugénio.
Do Eugénio de ouro e do Douro.
Do nosso Eugénio que é o Eugénio de todos os que já contemplaram, alguma vez, algo de belo.
Com ele na mão percebemos que a vida, tal como ele dizia da sua no seu auto nomeado “Rosto Precário” que temos na mão, é poesia.
Pois “a poesia é o inferno; às vezes também é o paraíso”.

Lino Teixeira

Sobre o autor:
Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.