O Porto é uma Caderneta Rara

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

O Porto como Cromo Raro [ou uma homenagem aos cromos do Porto].

O Porto só pode ser a cidade da galáxia com mais cromos – e pensões, ainda muito antes dos hostels– por metro quadrado. Esses cromos sempre disseram presente, dando um inestimável contributo para que o “very typical” fosse sempre amplamente uma promessa cumprida, mesmo (sobretudo?!) para quem cá vive.

Desde muito antes da expansão turística e enquanto a cidade foi ensaiando diferentes aproximações à(s) cidade(s) que é para quem a visita –cidade histórica, de cultura, de lazer, de património, de negócios, etc. –, persiste uma certa personalidade que compõe uma mistura sábia – e única – entre reserva de quem define o “nós”; abertura expressiva ao outro; franqueza e, sim, alguma loucura.

O Portuense Louco.
Todos nós – uns mais e outros menos –, portuenses, temos algo disto tudo.
E de loucura, pois claro.
Não consta, porém, que sejamos menos populares por isso.
Ou sê-lo-emos?
Sendo a fronteira entre uma necessariamente aparente sanidade e uma forçosamente manifesta loucura uma linha sempre ténue, importa talvez averiguar do grau de saúde mental com aqueles que, connosco se cruzando por ruas, praças e vielas do burgo, trazem uma certificação quase palpável de sua loucura mais ou menos na testa, enquanto passeiam (?) mais ou menos alegremente por aqui, por onde corremos (?) nós, todos os outros.

O Ulisses que vende Poemas.
Temos o Ulisses, que aqui se apresenta de barba razoavelmente aparada, armação de óculos distinta e impecavelmente sem lentes, mostrando como isto de ser intelectual e querer tudo ver bem vai muito para além do que qualquer oftalmologista possa ou queira caridosamente fazer por nós, meios ceguetas.
Ah, e temos que este Ulisses, que tudo vê e olha, graciosamente se dispõe a vender-nos poemas a um preço sem tabela ou regulamento. Apenas ao preço que a nossa Euronext pessoal ditar naquele momento, naquela circunstância.
É loucura vender poemas – ainda por cima escritos na hora – a quem passa e ter a audácia de ver o mundo – e, desde logo o Porto – através de uma armação que dispensa quaisquer lentes ou graduação?

A Zélia que levanta(va) as saias.
Para cada Ulisses há – ou houve, que faz tempo que não a vejo ou ouço – uma Zélia.
Alguém que, meninos e moços, nos assustava para a sexualidade que aí vinha (literal e metaforicamente) e – talvez sabendo-o bem – promovia uma aguda consciência da necessidade de uma certa limpeza na área, através do nobre e solícito gesto de levantar as saias, desprovidas de quaisquer complemento direto na exclamação que faziam apontando à genitália da dama.
Com o tempo, acalmou a Zélia estes “calores” – ou acalmamos nós no espanto do nosso olhar – e passou apenas a sobejar o essencial.
Como na sedução, após o corpo, fica o olhar; aqui, após o sexo fica a voz.
A bela voz tonal que nos tratando por “amor” logo pela manhã – ou pela tarde, mas porém jamais à noite – nos dizia/cantava/ gritava – “ò mor, dá-me um beijo, paga-me um piiiingo”. Assim mesmo. Sempre por esta ordem: amor primeiro, beijo logo a seguir e o saudável e algo infantil pingo para rematar. Querem maior lucidez do que esta? Não consigo antever qual seja possível.

O Porto é uma Caderneta Inacabada.
Aqui se fala de dois dos muitos cromos que compõem esta caderneta chamada Porto.
Como quando corríamos para a papelaria a propósito dos cromos da bola, há cromos mais raros e ainda mais repetidos. Há, certamente, cromos para a troca.
Já que os olhos e as visões não nos abandonam, porque não continuar este inventário dos cromos do Porto, cidade caderneta, através do olhar de quem nos visita sobre os que aqui são visitados.
Vêmo-nos por esta página?
Aqui. Agora. Ou também amanhã?

Lino Miguel Teixeira

Sobre o autor:

Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.