PORTO BY Sérgio Almeida

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Autor

Livraria Lello

Nascido em Luanda, é jornalista desde os 18 anos. Trabalha no Jornal de Notícias, na secção de cultura, desde 1998, com especial enfoque na área da literatura. Como autor, publicou os livros “Análise epistemológica da treta”, “Armai-vos uns aos outros”, “Não conto”, “Como ficar louco e gostar disso”, “Ob-dejectos” e “O elefante que não sabia voar”. Participou nas colectâneas “Fora de jogo”, “Luvina” (México) e “O livro do São João”. Está publicado no Brasil. Membro do colectivo de performances poéticas Sindicato do Credo, é ainda promotor cultural. Modera desde 2011 o ciclo de conversas com escritores “Porto de Encontro”.

O meu local preferido é…
Gosto muito de miradouros – dão-nos a sensação ilusória de abarcarmos tudo num só olhar – e no Porto há tantos por onde escolher! A Serra do Pilar e os Jardins do Palácio de Cristal têm miradouros fantásticos, mas sinto uma afeição muito especial pelos da Vitória e da Igreja dos Grilos por serem mais do que simples postais ilustrados. Tal como uma personagem de um conto que escrevi há anos, intitulado “O turistador”, gosto de perder-me para me encontrar. Por isso, faço questão de flanar com regularidade pela zona da Sé, sabendo de antemão que acabarei por me perder. O que nem é difícil, com as ruas sinuosas (infelizmente, cada vez menos lúgubres e mais sinalizadas) e o meu sentido de orientação, no mínimo, duvidoso.

Os portuenses são…
De uma generosidade sem par. Sou um entusiasta deste cosmopolitismo crescente do Porto, mas temo bem que o peso crescente do turismo na vida da cidade coloque, de algum modo, em risco essa autenticidade tão característica das gentes do Porto.

Uma história marcante…
Por norma, não situo geograficamente as minhas histórias. Prefiro situá-las num espaço por definir, algures entre Queluz de Baixo e Katmandu. Abri uma excepção há uns anos quando fui convidado a participar numa colectânea de contos sobre o São João. O conto chamava-se “Um trio de Odemira” e iniciava-se de uma forma algo provocatória: “De todas as ruas feias e sujas do Porto, a Rua do Bonjardim é de certo a mais feia e suja. E olhem que concorrência não falta…” Nada tenho contra a rua em causa, até porque passo por lá todos os dias… Simplesmente, a fala pertencia a uma personagem da história, um velhinho pouco simpático que foi festejar o São João ao Porto, integrado numa excursão. Ainda assim, quem não gostou nada foi o dono do meu café de eleição, nado e criado na Rua do Bonjardim. Como se não bastasse, tentou fazer-me prometer, sob pena de deixar de me servir as deliciosas francesinhas que confecciona, que, numa futura segunda edição, substituiria a sua rua de sempre pela do Almada, que sempre viu como inimiga, sabe-se lá porquê. Aceitei, claro. O que é um conto comparado com uma francesinha?

A cultura no Porto é…
Um traço inapagável da cidade e das pessoas que a fazem. Não é por acaso que nos períodos de menor fulgor, como aconteceu no pós-Porto 2001, há uma espécie de sublevação cívica que representa, antes de mais, uma lição de dignidade a todos os que quiseram apoucá-la. Chamem-lhe “espírito de resistência” ou outra coisa qualquer, mas a cultura no Porto verdadeiramente marcante e original é a anti-institucional, a que faz da criatividade a sua maior força e, não raro, zomba do poder.