PORTO BY Emília Silvestre

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Livraria Lello

Nascida no Porto, iniciou a sua actividade aos 14 anos no Teatro Experimental do Porto. É um dos elementos fundadores e co-directora artística da companhia portuense ENSEMBLE. Integra, desde 1996, o elenco de diversas produções do Teatro Nacional S. João destacando-se as interpretações em Não Eu e Ah os Dias Felizes! de Samuel Beckett (encenação de Nuno Carinhas) e Turismo Infinito (encenação de Ricardo Pais). Em 2017 foi Lady Macbeth na encenação de Nuno Carinhas de Macbeth de William Shakespeare. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, fez a sua formação em Interpretação e Voz. Em televisão participou em várias séries e novelas de vários canais e em quatro produções cinematográficas. Professora da ESMAE na Licenciatura em Teatro entre 98/2000, integra há vários anos a equipa de formadores do Curso Profissional de Interpretação da Academia Contemporânea do Espetáculo. Recebeu a Medalha de Mérito Cultural – Grau Ouro, no âmbito da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Em 2007, a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu-lhe o Prémio Menção Honrosa pelo conjunto da sua carreira.

. O meu local preferido é… É tão difícil escolher…! Adoro o Passeio das Virtudes, com o rio ali ao fundo e a Cooperativa Árvore… toda a zona dos Clérigos, com as ruas estreitas e sinuosas, a Lello e o Jardim da Cordoaria… adoro olhar o rio e a Ribeira da esplanada Porto Cruz em Gaia… adoro Serralves, a Foz e olhar o mar na esplanada da Praia da Luz… adoro o Parque da Cidade… adoro os pequenos cafés e restaurantes que escondem jardins luxuriantes e acolhedores… adoro os manjericos, o S. João do Porto e o Teatro S. João…. Adoro…!

. O que eu mais gosto no Porto é… É uma cidade com carisma, força e graça! “O Puorto é uma Naçom, carago!” diz muito do orgulho que os portuenses têm da sua cidade. O sotaque do Porto tem, aliás, uma prosódia maravilhosa, uma riqueza de vocabulário e um humor desarmante como não há outro. Eu que, desde menina, fui treinada para não ter sotaque nenhum em palco, sempre que posso adoro falar à moda do Porto! Até porque “num há nada melhor do que laurear a pebide” com os amigos no Serralves em Festa e “morfar” uma francesinha ou umestrugido” de moelas, depois ir “ber” um concerto no Parque porque um deles disse que está “cuma fezada” que é bom… e “esbardalhar-me tuoda” na relva a rir às gargalhadas, até porque “num adianta um grosso ficar em casa c’o tao!!!” Só de ouvir fica-se logo bem-disposto!!!

. Os portuenses são… Reservados, mas generosos e com o coração na boca. É gente sincera e genuína: são implacáveis com as traições, mas verdadeiros nos sentimentos! Se um amigo está mais em baixo dizem logo “Anda até lá a casa tomar um copo, ó morcão!” E já não o largam, levam-no MESMO para casa! Não é da boca para fora… levam-no, dão-lhe de beber, de comer e, se for preciso, fica lá a dormir e até lhe contam uma história para adormecer…  Têm um espírito livre e tanto admiram as coisas novas, diferentes e revolucionárias que acolhem de coração aberto como são, ao mesmo tempo, muito ligados às boas tradições do convívio entre amigos, no apoio e carinho que dão aos mais velhos e às crianças, os “catraios” como lhes chamam com ternura!

®João Tuna

. Uma história marcante… Passei a minha infância com os meus avós, numa casinha com cave, rés-do-chão, 1º andar e quintal na Rua da Constituição 1386, que ainda lá está, não foi deitada abaixo nem vendida pelos donos, não sei porquê! Sempre que passo por lá um sorriso enche-me a cara, inevitavelmente, e vêm-me à memória as tardes que passava num recanto da cave – que o meu avô tinha pintado e a minha avó me tinha dado mantas, almofadas e cortinas para eu decorar – a imaginar histórias que “encenava e representava” para as minhas amigas e os meus irmãos que eu obrigava a participarem, evidentemente! Tinha à volta de 8 ou 10 anos e brincava aos príncipes e às princesas, à Gata Borralheira ou à Bela Adormecida, como todas as crianças…. Pouco tempo depois, aí com 12 anos, acabada de entrar no Liceu Carolina Michaellis, fui acompanhar uma amiga para umas provas que o Correia Alves (na altura realizador da RTP Porto) estava a fazer para escolher jovens para representarem uma peça num palco montado na Rotunda da Boavista. Mal podia eu imaginar que, passado pouco tempo, estaria deitada num estrado a fazer de cama e a ser “acordada” com um beijo por um “príncipe encantado” (que era, na verdade, uma rapariga com voz grave) no papel de Bela Adormecida! Pois… tinha sido eu a escolhida para o papel e não a coitada da minha amiga, que me pareceu não se importar muito. Lembro-me da sensação aconchegante das luzes em cima de mim e de não ver o público que assistia à peça e de pensar como era tudo muito parecido com a minha cave, em casa dos meus avós… Mas o mais intrigante foi uma espécie de profecia do Correia Alves no final do pequeno espectáculo: virou-se para mim e disse-me “Quando fores grande vais ser actriz”! Bem, posso não ter crescido muito desde aquela altura mas a profecia cumpriu-se e, a verdade, é que não podia ser mais feliz!

. A cultura no Porto é… A arte e a cultura no Porto iniciaram uma dinâmica imparável a partir da segunda metade dos anos noventa. Com altos e baixos, com avanços e recuos, com o Porto-Capital Europeia da Cultura e a ressaca que se viveu depois disso, com a resiliência dos artistas contra a falta de investimento crónico, com a esperança renovada por mudanças políticas e com a coragem e determinação dos agentes culturais, o Porto afirmou-se ao nível das grandes cidades europeias. Há uma profusão de espectáculos e exposições, de concertos e ateliers que dizem muito do espírito inovador e rebelde dos portuenses. No entanto, preocupa-me a ideia que se tem vindo a instalar de cultura como evento, ou multiplicação de eventos, e menos de enraizamento. Penso que temos de estar atentos!