PORTO BY Dina Ferreira

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Livraria Lello

Dina Ferreira tem 74 anos, é professora reformada de português-francês. Em 2003 abriu a Poetria, a única livraria de poesia e teatro do país fruto de uma ideia da sua autoria, concentrar num único espaço uma livraria especializada nestes dois temas. Numa localização privilegiada, junto do Teatro Carlos Alberto e de escolas de artes dramáticas, a Poetria passou no final de 2017 para as mãos de dois antigos clientes, Nuno Queirós Pereira e Francisco Garcia Reis. Dina Ferreira goza agora em pleno a sua reforma e tem “passeado mais pelas ruas do Porto”.

. O meu local preferido é… o Palácio de Cristal. Acho um espaço magnífico. Gosto de lá passear, dos jardins.

. O que eu mais gosto no Porto é… o espírito das pessoas, a parte humana das pessoas é realmente especial.

. Os portuenses são… Muito bravos, muito corajosos, muito humanos, daquela humanidade que se está a perder um pouco nas grandes cidades. Acho que se mantém no Porto um certo espirito de agregação, quase de aldeia, existe o vizinho que se conhece, a entreajuda, … ainda um destes dias testemunhei isso, um senhor que caiu na rua e juntou-se logo um grupo de pessoas, eu incluída, e estivemos ali até ele se levantar. Depois estivemos a ouvi-lo e o senhor já foi confortado, tinha desgostos terríveis, duas filhas que não lhe ligavam e no fim quando se foi embora notava-se que já ia mais confortado. Isto já quase não existe… Essa parte agrada-me muito nos portuenses, na facilidade que têm em comunicar com as pessoas e de trocar ajuda, experiências e solidariedade. Acho que não estou a ser romântica, acho que é mesmo verdade.

. Uma história marcante… a história de uma prostituta que passava em frente da montra da Livraria [Poetria]. Eu escrevia poemas em folhas A4 e colava no vidro e notava que ela lia e tomava notas. Um dia entrou na livraria e pediu-me para lhe vender uma daquelas folhas A4 e eu disse “não, eu imprimo e dou-lhe”. A partir daí disse-me que também escrevia poemas e eu disse que gostava de ler os poemas dela. Trouxe-me um calhamaço enorme cheio de poemas. E o que é que ela fazia? Uma coisa incrível. Por exemplo um poema do Jorge de Sena, ela copiava o poema que lia e depois alterava-o de acordo com a sua vivência pessoal, apropriava-se do poema e assinava. Notei que o que ela tinha ali eram poemas que ela lia de autores conhecidos e que depois alterava aplicando a sua própria vivência, que era terrível. Ainda está por aí nas ruas do Poto, destruída pelo álcool, por vários tipos de violência. Esta história marcou-me muito.

O Café Lusitano abriu mais ou menos na mesma altura da Poetria e foi lá que organizei a primeira sessão de poesia em 2003, “Vidas de Putas São Vidas Humanas” e esta senhora esteve lá, participou, leu um poema dela. Foi uma sessão incrível a abarrotar de gente, no dia a seguir vieram duas páginas inteiras no jornal. Para ela foi uma experiência, claro que isso não salva ninguém mas foi um dia feliz para ela e para todos nós.

. A cultura no Porto é… acho que está bem e recomenda-se. Penso que um dos grandes responsáveis foi o Paulo Cunha e Silva, deixou a semente e a dinâmica para as coisas acontecerem ao nível das artes, de projetos jovens, das lojas maravilhosas que têm estado a aparecer.