PORTO BY Ana Luísa Amaral

Nasceu em Lisboa em 1956. É professora da Faculdade de Letras do Porto e membro da Direção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, no âmbito do qual dirige o grupo internacional de pesquisa Intersexualidades. Autora de mais de três dezenas de livros, entre poesia, teatro, ficção, infantis, traduzidos e editados em diversos países. Traduziu diferentes autores, como Emily Dickinson, William Shakespeare ou John Updike.

As suas obras mais recentes em Portugal são What’s in a Name (poesia, Assírio & Alvim, 2017) e Arder a Palavra e Outros Incêndios (ensaio, Relógio D’Água, 2017); no estrangeiro, Oscuro (trad. Luis María Marina, Zaragoza, Olifante, 2016) e The Art of Being a Tiger (trad. Margaret Jull Costa, Dartmouth, UK, 2016 e Tagus Press, USA, 2017).

Obteve já várias distinções por serviços à Literatura e diversos prémios: Prémio Literário Correntes d’Escritas, Premio di Poesia Giuseppe Acerbi, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, Premio Internazionale Fondazione Roma, Prémio PEN, de Ficção.

Tem, com Luís Caetano, um programa semanal na Antena 2 sobre poesia, O Som que os Versos Fazem ao Abrir.

 

. O meu local preferido é… o Passeio das Virtudes mas há muito outros sítios de que gosto muito no Porto. Só que o Passeio das Virtudes tem a vista mais bonita da cidade e talvez das mais bonitas de Portugal. Também a zona do Teatro Nacional de São João com os seus cafés e esplanadas; o próprio teatro é um sítio lindíssimo, o edifício está maravilhoso.

Um outro lugar que está extraordinário agora é a Galeria da Biodiversidade na casa Andresen e o Jardim Botânico (esse, desde sempre).

Como vivo em Leça, toda a zona marítima é também outra de que gosto muito. Vejo muito o mar, nunca seria capaz de viver longe do mar. Vivi três anos nos Estados Unidos e, pelo menos uma vez por semana, fazia uma hora de carro para ir ver o mar.

O Porto tem também o rio… A Ribeira, a zona mais acima, junto do mercado Ferreira Borges e do Palácio da Bolsa merecem destaque. Há um sítio maravilhoso na Foz, na marginal, na Cantareira, quando aparece a Ponte da Arrábida, quer venha de carro, a pé, de elétrico, e aparece aquela paisagem… Quando passo na Ponte digo sempre isto: “nunca sei qual é o lado mais belo, se o que se fecha para o rio, se o que se abre para o mar”.

O Porto tem coisas escondidas, muitos restaurantes, tasquinhas onde se podem comer pratos maravilhosos, comida portuguesa tradicional muito boa e barata. Acho que o Porto nesse aspeto não se deixou (ainda!) estragar muito, embora muito do pequeno comércio tenha sido substituído por coisas tipo pizarias, hamburguerias, creperias, coisas mais “globalizadas”, no pior sentido do termo. Porém, os pequenos restaurantes que já existiam, felizmente continuam: “O Buraco”, por exemplo, é muito bom.

 . O que eu mais gosto no Porto é… eu tenho um livro que se chama “Entre Dois Rios e Outras Noites” (2007, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), esse livro define-me de alguma forma, porque eu sempre me senti entre dois rios, o Tejo e o Douro. Vim para Leça da Palmeira com nove anos e por cá fiquei mas nunca deixei de amar profundamente Lisboa. Sinto-me de facto entre os dois espaços, entre Lisboa e o Porto. Quando vim para Leça nos anos 60, o país estava naquela altura muito dividido por bairrismos, de uma forma muito mesquinha – que infelizmente ainda continua, em certa medida. Ainda se ouve muito que o que de melhor há em Lisboa é o comboio para o Porto e vice-versa. Naquela altura, realmente havia a ideia de que Lisboa era a capital e o resto era província, e, embora alguns dos Lisboetas ainda tenham um pouco essa mania, o resto do país tem-se vindo a impor positivamente e o Porto também, claro. Aconteceu que fui amando o Norte e o Porto aos poucos. Lisboa é uma cidade pela qual nos apaixonamos fácil e rapidamente, ao passo que o Porto é uma cidade que se aprende a amar. E depois de se amar nunca mais se deixa de amar porque o amor não acaba, as paixões é que acabam. Qualquer turista dir-lhe-á facilmente que Lisboa é linda, é uma cidade pela qual nos apaixonamos. Mas o Porto – o Porto, aprendemos a amar devagarinho.

Gosto da cor do Porto, do granito escurecido, dos acentos oblíquos nas palavras, do seu sotaque – que eu não tenho, ainda hoje passo por lisboeta -, das pessoas.

Durante muitos anos achei que a luz era um exclusivo de Lisboa porque Lisboa tem uma luz lindíssima, tem muito sol e tem o calcário, o que a torna uma cidade luminosa, muito mais branca. O Porto é mais escuro, por causa do tempo naturalmente, e também por causa da arquitetura, mas isso dá-lhe também uma luz especial, dá-lhe uma forma diferente de relação com as coisas.

. Os portuenses são… fiéis, leais. Os portuenses caracterizam-se por serem mais fechados, menos dados num primeiro contacto mas depois vão-se conhecendo. Se eu pudesse ou quisesse definir a forma de estar das pessoas do Porto, diria que elas são pessoas mais reservadas, mais fechadas, mas que, quando se abrem, é para sempre, são amigos para sempre.

 . Uma história marcante… vim para cá com nove anos de idade. Viemos porque o meu avô tinha tido um cancro na garganta, o meu pai achou que precisava de dar apoio e viemos todos, os meus pais, a minha avó, que vivia connosco, os padrinhos da minha mãe e o cão, chamado Stop.

Para mim, foi muito complicado, havia uma diferença abissal entre Sintra dos anos 60 e Leça da Palmeira dos anos 60. Havia pastelarias em Sintra, o “Tirol”, por exemplo, onde a minha mãe ia com as amigas e, quando chegámos a Leça, havia apenas um café, só frequentado por homens. Mesmo no Porto, nos anos 60, as senhoras no café Império bebiam vinho por chávenas de chá para não se ver que estavam a beber vinho. Isto era o Porto, muito mais fechado do que Lisboa, o que é normal porque Lisboa era a capital, tinha mais influências estrangeiras. A distância física entre Lisboa e Porto era enorme, demorávamos oito ou nove horas de viagem. Aquela ideia que se tinha do Norte, de ser mais provinciano do que Lisboa, a meu ver, nos anos 60 fazia algum sentido.

Agora, olhando para trás, penso que isto teve a ver com o facto de a minha mãe não querer vir para cá e isso, sendo filha única, marcou-me. Lembro-me dela a chorar e fui depois para uma escola onde faziam pouco de mim por causa da pronúncia, faziam pouco de mim porque eu chamava “minha senhora” à professora, faziam pouco de mim porque eu não sabia o “jogo do mata”.

A minha primeira sensação foi de que tinha caído no meio dos celtas, vinha dos árabes, de uma cultura muito delicada e, de repente, tinha caído nos celtas porque jogavam ao “mata” – nunca tinha visto tal -, inventaram um jogo para mim, “mata a lisboeta”, e atiravam-me ao ar. Eu, como vingança, levava o Diário Popular para a escola, onde apareciam “notícias de Lisboa” e “notícias da província” e eu gozava – “Olhem aqui é a província”. Depois fui para um colégio de freiras e continuei a ser maltratada durante muito tempo, precisamente por causa da pronúncia, agarrei-me terrivelmente à pronúncia, das saudades imensas que tinha de Lisboa, adormecia a chorar com saudades de Lisboa, não queria estar aqui.

Por volta dos 14 ou 15 anos, quando fui para o liceu, fiz as pazes com o Norte. Cresci e passei a gostar mesmo do Norte, embora nunca tenha deixado de amar Lisboa. Lisboa continua a ser para mim uma cidade lindíssima, a que eu volto sempre.

 . A cultura no Porto é… excelente. Diria que nos últimos anos em termos de cultura e de arte, o Porto está uma cidade absolutamente comparável a qualquer cidade europeia. Penso que fruto de uma política inteligente, fruto de mais investimento da Câmara Municipal, mas também fruto de termos saído, aparentemente, daquela crise horrorosa e de haver mais investimento nos agentes culturais a nível nacional e local.

Lembro-me das peças de teatro há poucos anos serem monólogos ou diálogos porque não havia dinheiro para pagar aos atores. Apesar de tudo, acho que muito haveria a fazer no teatro, não faz sentido que os atores estejam a ensaiar durante três ou quatro meses para depois ter uma peça em cena uma semana ou três dias… Tudo é medido pela quantidade e não pela qualidade e isto tem de ser revisto.