Ponte Maria Pia: Uma rara obra de arte ao abandono há 26 anos

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Foto: Alegna

Ao cabo de 114 anos de intensa atividade, a ponte Maria Pia era encerrada à circulação ferroviária no dia de São João, há 26 anos.

1864: o caminho de ferro chegava à estação das Devesas. Era necessário agora estudar a melhor forma de fazer chegar a Linha do Norte à cidade do Porto, vencendo o sério obstáculo que era o rio Douro.

Nos anos subsequentes, foram efetuados numerosos estudos para definir o melhor traçado. A escolha acabou por recair no chamado “traçado do Seminário” que previa a transposição do rio à cota alta, entrando a linha no Porto mesmo ao lado do antigo seminário diocesano. A adoção desta solução de atravessamento coube a Pedro Inácio Lopes, engenheiro-chefe da Companhia Real dos Caminhos de Ferro, que foi responsável por acompanhar os trabalhos de construção da nova ponte.

Feito o concurso público, a escolha recaiu sobre a proposta da casa Eiffel & Cie. que, com a sua equipa de engenheiros, logrou vencer com sucesso os diversos desafios técnicos que se lhe foram apresentando.

A ponte que deveria homenagear o rei consorte

Foto: José Moutinho

“Ponte D. Fernando” foi a designação da obra de arte durante a sua construção. O nome pretendia homenagear o rei consorte alemão, marido de D. Maria II. O nome definitivo só foi fixado no próprio dia da inauguração, a 3 de novembro de 1877, quando uma comissão solicitou a Maria Pia de Saboia, rainha-consorte de D. Luís I, que aceitasse que a nova ponte fosse batizada em sua honra, tendo esta anuído.

Mas coube a D. Adelaide Lopes, mulher do Eng.º Pedro Inácio Lopes, protagonizar um episódio verdadeiramente insólito. Antes da carruagem real iniciar a travessia da ponte, D. Adelaide afastou-se do seu marido e da comitiva que, do lado do Porto, aguardava a família real, e, com um passo firme e ligeiro, percorreu toda a extensão da ponte do Porto até Gaia através da passadeira lateral, utilizada para manutenção, fazendo equilibrismo sobre a travessa central, ainda sem guarda. Parece que tal arrojo foi motivado por uma aposta feita com as suas amigas, tendo D. Adelaide se tornado, de facto, a primeira pessoa não relacionada com a construção a atravessar a ponte.

A Maria Pia apresenta uma série de soluções técnicas originais. Com 354 metros de extensão e colocado a 62 metros acima do nível do rio, o tabuleiro apoia-se num arco de 160 metros de vão, o maior do mundo à época.

O contributo de Eiffel e de Seyrig

Foto: António Amen

Um dos aspetos que, ainda hoje, se reveste de alguma controvérsia é a questão da verdadeira autoria da ponte.

A empresa Eiffel & Cie. foi buscar o seu nome ao engenheiro francês Alexandre Gustave Eiffel que, em 1869, criou a sociedade com o engenheiro belga François Théophile Seyrig, seu colega na École Centrale des Arts et Manufactures, de Paris. Seyrig entrou para a empresa com 126 mil francos e Eiffel com 84 mil francos. Apesar de ser sócio minoritário, Eiffel assegurou para si a exclusividade na gestão da sociedade.

À Eiffel & Cie. foi sendo adjudicada a construção de sucessivos viadutos, pontes e outras obras, designadamente a travessia ferroviária do Douro. Parece hoje consensual que coube ao engenheiro Théophile Seyrig a conceção do arco metálico da ponte, elemento fundamental de todo o conjunto. Aliás, no próprio material promocional produzido pela casa Eiffel & Cie. são referidos como autores da ponte Théophile Seyrig e Henri de Dion (sendo este o responsável pelos cálculos).

No entanto, o facto de Eiffel ser o diretor do projeto e da empresa ostentar o seu nome, acabou por relegar Seyrig para o estatuto de mero “colaborador de Eiffel”. Para além disso, as grandes preocupações comerciais de Eiffel, que contrastariam com uma personalidade mais introvertida de Seyrig, acabaram por ditar a saída do belga em litígio da sociedade. Rompendo com o antigo sócio em 1879, Seyrig ingressa na Société de Constructions de Willebroek e, com esta empresa, vence o concurso público para a construção da ponte Luís I, fazendo jus à sua ímpar competência técnica. No entanto, a obra posterior de Seyrig foi pouco relevante. Por contraste, após a ponte Maria Pia, a casa Eiffel construiu mais trinta e duas pontes ferroviárias, só em Portugal, o viaduto Garabit (1884), a armadura da Estátua da Liberdade (1885) e a famosíssima Torre Eiffel (1889). Tudo isto contribuiu para granjear uma enorme notoriedade a Eiffel que, injustamente, eclipsou o papel decisivo de Seyrig na construção da ponte Maria Pia.

Ponte problemática

A avançada idade da obra de arte e as limitações que impunha ao trânsito ferroviário, acabaram por ditar a sua substituição. A sua função passou a ser desempenhada por uma outra ponte, não menos notável, obra do Eng.º Edgar Cardoso, a São João. Mas não sem antes, a ponte ter recebido a estatuto de Monumento Nacional, em 1983. Em 1990, um ano antes da sua “reforma”, a American Society of Civil Engineers concedia à Maria Pia o título de “International Historic Civil Engineering Landmark”, a única obra portuguesa da lista.

A 24 de junho de 1991, a inauguração da ponte São João desonera a Maria Pia das funções para as quais tinha sido construída. Desde essa altura, foram sendo apresentadas numerosas propostas para o reaproveitamento da ponte centenária: desde transformá-la em corredor ciclo-pedonal, até à sua desmontagem e reconstrução no centro do Porto. No entanto, nenhuma delas veio a ser implementada, mantendo a ponte hoje a mesma indefinição em relação ao seu futuro que tinha há um quarto de século. Até quando?

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.

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