O “Palácio de Cristal” já não existe há 65 anos

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Foto: Guedes, CMP, Arquivo Histórico Municipal

“Palácio de Cristal” – uma designação que ainda hoje desperta um misto de fascínio e saudosismo em muitos portuenses. É que, em boa verdade, o “Palácio de Cristal” já não existe há 65 anos.

Concebido para acolher a Grande Exposição Internacional do Porto, o Palácio de Cristal foi construído no campo da Torre da Marca, já nos arrabaldes do núcleo citadino, e inaugurado em 18 de setembro em 1865 pelo próprio rei D. Luís. Da autoria do arquiteto inglês Thomas Dillen Jones, foi uma versão reduzida do Crystal Palace de Londres. Media 150 metros de comprimento por 72 metros de largura e era dividido em três naves.

A Exposição de 1865 foi um sucesso estrondoso na cidade, tendo contado com mais de três mil expositores provenientes de países com a França, o Reino Unido, a Alemanha, a Bélgica, o Brasil, a Espanha, a Dinamarca, a Rússia, a Holanda, a Turquia, os Estados Unidos e o Japão.

Ponto de encontro da elite portuense

Foto: Sergei Gussev

A envolvente do edifício do Palácio de Cristal foi dignificada com a criação de jardins românticos pelo paisagista alemão Émile David. Nas décadas subsequentes, estes jardins tornaram-se o principal ponto de encontro da elite portuense:

«Aos domingos, no Porto, na grande avenida do Palacio de Crystal, as senhoras constituem grupos separados; e os homens, a não serem os maridos ciumentos e os solteirões rheumaticos, passeiam kilometricamente, permitta-se-me o adverbio, d’um lado para o outro, cumprimentando-as sem lhes fallar.» (Alberto Pimentel, “O Porto por fora e por dentro”, 1878).

Os jardins possuem belos exemplares de rododendros, camélias, araucárias, ginkgos e faias, para além de fontes e estátuas alegóricas às estações do ano. O eixo mais marcante deste parque é a chamada “Avenida das Tílias”, atualmente ladeada pela Biblioteca Municipal de Almeida Garrett, pela Concha Acústica e pela Capela de Carlos Alberto. Este pequeno templo precede a existência do próprio Palácio.

Foi erguido em 1854, por iniciativa da princesa Augusta de Montléart, em memória do seu irmão, o rei do Piemonte-Sardenha, Carlos Alberto, que se exilou na cidade do Porto depois de ter sido derrotado pelos austríacos na batalha de Novara. Após uma passagem pelo Palácio dos Condes de Balsemão (na praça atualmente chamada de Carlos Alberto), mudou-se para a Quinta da Macieirinha, onde veio a falecer em 1849. A sua irmã mandou construir a capela nos terrenos desta quinta, atualmente incorporados nos jardins do Palácio de Cristal.

Na Avenida das Tílias e noutros locais dos jardins encontram-se estratégicos miradouros que proporcionam deslumbrantes vistas panorâmicas do rio Douro e da cidade.

Exposições

Para além da Exposição Internacional do Porto, de 1865, o palácio acolheu largas centenas de outras grandes exposições, destacando-se a Exposição Agrícola de 1903 e a Exposição Colonial, no verão de 1934. Para esta exposição, o Palácio de Cristal foi transformado em “Palácio das Colónias”. Foi durante esta Exposição Colonial do Porto, de 1934, que teve Henrique Galvão como comissário, que se lançou o famoso mapa com a legenda “Portugal não é um país pequeno”, no qual os territórios das colónias portuguesas apareciam sobrepostos ao continente europeu. À entrada da exposição foi colocado o “Monumento ao Esforço Colonizador Português”, da autoria de Sousa Caldas e Alberto Ponce de Castro, que atualmente se encontra na Praça do Império, na Foz do Douro.

A Exposição Colonial foi o acontecimento de maior impacto na vida da cidade do Porto na década de 1930, mobilizando e atraindo milhares de visitantes, destinada a propagandear o Estado Novo como um regime moderno e ativo num Portugal imperial.

A Exposição Colonial do Porto de 1934 serviu de ensaio à Exposição do Duplo Centenário (ou do Mundo Português) de 1940, em Lisboa.

Um fim inglório

Foto: Sara Araújo

Para além das feiras e exposições, o Palácio de Cristal foi também um importante espaço de cultura, contendo um órgão de tubos considerado dos maiores do mundo e onde se realizaram importantes concertos do compositor Viana da Mota ou da virtuosa violoncelista Guilhermina Suggia.

A pretexto da realização do Campeonato Mundial de Hóquei em Patins no Porto, o palácio acabou por ser ingloriamente destruído em 1951, tendo-se erguido no seu lugar uma nave de betão armado, a que foi dado o nome de Pavilhão dos Desportos – hoje chamado Pavilhão Rosa Mota –, projetado pelo arquiteto José Carlos Loureiro. Dos velhos tempos ficaram os jardins, a designação de “Palácio de Cristal” e uma enorme saudade dos portuenses por um edifício romântico que a maioria nunca chegou a conhecer.

Manuel de Sousa

Os jardins do Palácio de Cristal são um dos mais românticos da cidade.

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.