Nossa Senhora de Vandoma

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Movidos pelo facto de São João ser o santo popular adotado pela cidade e que atrai dezenas de milhares de pessoas para a rua na noite de 23 para 24 de junho, muitos portuenses acreditam ser São João o padroeiro da cidade. Mas não. São João não é, nem nunca foi, o padroeiro da cidade. Tal honra cabe a Nossa Senhora da Vandoma que também merece honras de destaque no brasão da cidade desde há séculos. Porquê? Vamos saber mais…

A armada dos gascões

Tudo terá começado lá pelo século X, numa época em que a sorte das armas não estava a sorrir aos cristãos. Desesperado, um poderoso senhor do Entre Douro e Minho, de seu nome D. Múnio Viegas, viu a salvação nos reinos cristãos de fora da península. Decidiu atravessar o norte da Espanha, parando na Gasconha, região no sudoeste de França.

Os apelos de D. Múnio foram tão convincentes que, pouco tempo depois, dava entrada pela barra do Douro um poderoso exército de cavaleiros gascões. Com eles vinha D. Nónego que tinha sido bispo de Vendôme, cidade do centro de França. Desembarcados na margem direita do Douro, os gascões rapidamente reconstruiram as antigas muralhas. Elegeram D. Nónego como bispo da cidade do Porto e, por sua indicação, foi colocada uma imagem de Nossa Senhora que tinha trazido de Vendôme, por cima da porta principal da muralha. Protegida desta forma, a cidade resistiu ao temível Almançor – então governador de al-Andalus (designação árabe da Península Ibérica) – quando este, em 997, por aqui passou a caminho de Santiago de Compostela, que saqueou. Tais feitos foram atribuídos à proteção que Nossa Senhora de Vandoma concedeu à cidade. A porta passou a chamar-se de Vandoma e a cidade passou a ostentar o título de “Civitas Virginis”, ou seja, Cidade da Virgem.

É claro que há nesta história um forte pendor de lenda. Numa abordagem mais científica, alguns historiadores advogam que estes gascões não eram, na verdade, cavaleiros originários da região francesa da Gasconha, mas sim da aldeia também chamada Gasconha, na freguesia de Sobreira, concelho de Paredes. E que a cidade francesa de Vendôme nada tem a ver com a Vandoma do Porto, mas sim a freguesia, também paredense, do mesmo nome.

A verdade é que, ao longo dos séculos, as armas da cidade do Porto têm reproduzido o cenário da porta da muralha rodeada por duas torres, com imagem da Virgem Maria com o Menino ao colo. O exemplar mais antigo que se conhece destas armas é um selo ogival de cera, justaposto a uma procuração apresentada numa sessão de 8 de maio de 1354 do senado municipal. Mas crê-se que a adoção destas armas seja bem mais antiga, datando possivelmente de 1012.

Demolição do arco

Num certo dia 16 de agosto de 1855, uma vereação municipal presidida pelo visconde da Trindade, em completo desrespeito pelo que aquela antiquíssima porta representava, ordenou a sua total demolição com a justificação de «tornar mais espaçosa a calçada» que ali existia. A demolição da velha porta de Vandoma levou à mudança da estátua da Virgem para o interior da Sé do Porto, onde atualmente ainda se encontra, no transepto direito. A lembrar o local do velho arco existe hoje apenas a placa toponímica “Calçada de Vandoma”.

Em 1964, aquando das comemorações do ano jubilar da Imaculada Conceição, procedeu-se à restauração de Nossa Senhora de Vandoma com padroeira da cidade. Foram organizados vários atos solenes, entre os quais uma grandiosa procissão luminosa na qual a estátua de Nossa Senhora de Vandoma foi transportada da igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Praça do Marquês de Pombal, até à Sé do Porto. Aqui foi proclamada pelo povo e pelo bispo D. António Ferreira Gomes como padroeira do Porto.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.