Uma Livraria que é um Amor de Perdição

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Uma Livraria com Camilo Dentro

Uma livraria, ainda mais uma bela livraria, ainda mais uma boa livraria, ainda mais a Livraria Lello, tem todos os autores dentro.
No caso da Lello tem dentro todos os autores dentro e cada vez mais autores que nasceram a falar e quase nasceram a escrever em português.
Mas há autores que como que são da casa. Porque nos escreveram e enquanto vivos e porque o que muito que escreveram para além das cartas que nos enviaram ficou até hoje à nossa cabeceira, nas nossas estantes e nas mãos dos muitos leitores que nos visitam.

Camilo, um “autor muito cá de casa”.

Camilo é certamente um desses autores que são tão “cá de casa”, pertencendo a todo o mundo.
Como a Livraria Lello foi – senão “a” – uma das primeiras livrarias do Porto a ter o livro como o motor exclusivo da sua riqueza, Camilo foi um – senão “o” – um dos primeiros autores a conseguir viver apenas da sua profícua produção literária.
E profícua é, na verdade, um epíteto modesto. São, pelo menos porque ainda se descobrem escritos seus, 137 títulos, reunidos em cerca de 180 volumes.
Ora de 1825 a 1890, as paredes da sua vida, vão 65 anos bem medidos. 3 volumes por ano não será coisa pouca ainda hoje para o mais expedito dos monges reclusos.
Para quem nunca se furtava a viver mais um pouco, fica-se com a ideia que escrevia sempre que respirava. Se não foi exatamente assim, pelo menos parece certo que escrevia sempre que suspirava.

Uma Livraria e um Autor “do seu tempo”.

Tal como a Livraria Lello é “uma Livraria do seu tempo”, Camilo foi sempre “um autor do seu tempo”.
Criou e viveu as modas literárias, por isso sendo popular e vendendo o que escrevia, muitas vezes na tão contemporânea forma de folhetim, mas nunca transigiu na qualidade literária de que não abdicava e na visão romântica que protagonizava, muito naturalmente, em excesso. Mesmo quando escrevia para jornais e folhetos, sempre com uma polémica afiada em modo de farpa e sempre, mas sempre, em bem mais do que 140 caracteres.

A orfandade do amor.

Órfão de mãe desde o primeiro ano da sua vida, órfão de pai logo no final da sua primeira década, casado aos 16 anos, vai vivendo inúmeros amores que não (apenas) o da esposa até que se apaixona de facto por uma mulher que casa…com outro. Bem tenta substituir os suplícios do amor pela entrega a Deus, mas a carne (ou a alma) é mais forte e o destino traça o impulso irreprimível do rapto da mulher amada e abre caminho ao pecado divino de ambos, traduzido pela lei dos homens numa pouco elegante “cópula com mulher casada”.

Da “Cadeia da Relação” para uma relação que encandeia.

Sendo ambos presos, cinicamente cumprem pena mesmo em frente à Livraria Lello, na magnífica (agora, que não certamente em tão para quem nela dormia acordado e acordava como que dormindo, mas jamais sonhando) Cadeia da Relação, aqui já defronte.
Dela saem para vida que durou ainda mais de três décadas, pois, tendo tudo isto e muito mais já na coluna do vivido, Camilo volta ao mundo dos cidadãos livres com apenas 38 anos e, pelo menos, duas obras mais.
Uma, as suas “Memórias do Cárcere”. Outra, a sua obra prima, “Amor de Perdição”, que Camilo terá escrito em apenas duas semanas e que, a partir da mesma Cadeia da Relação, inscreve no panteão da literatura universal os amores de Camilo e Ana Plácido como sendo os de Simão e Teresa, arrebatados numa vida alegre e arrematados num fim necessariamente triste, pois se o amor sobrevive à morte, não consegue ser vivido a dois para além da morte de um.

Um carrasco chamado “venéreo inveterado”.

Condenados, punidos e mais tarde absolvidos do encargo adúltero, libertam-se os amantes amadores e amados para uma vida a dois, até ao último segundo antes do fim. Um fim decidido por Camilo, exaurido pela cegueira originária, tudo indica, na fonte do seu pecado. Aquela a que Camilo chamava o seu “venéreo inveterado” e que os clínicos traduzem, friamente como é sua missão, como neurossífilis, então doença temível e incurável.
Derrotado, finalmente, por esta cegueira que não lhe permitia já nem ler nem escrever e cansado do encargo que sentia ser para quem passou a ser os seus olhos e as suas mãos, a sua Ana Plácido, matou-se enquanto esta conduzia à porta, para dele se despedir, o médico que pouco mais tinha prescrito do que palavras de consolo das quais Camilo traduziu o real significado, a impotência perante a morte próxima que, assim, fez imediata.

Lino Teixeira

Sobre o autor:

Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.