Judiaria do Olival

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Os judeus fixaram-se no que hoje é Portugal muito antes do próprio país existir. O seu contributo foi fundamental para a afirmação do jovem reino português, entre os séculos XIII e XV. Durante 111 anos, a comunidade judaica da cidade do Porto esteve estabelecida a menos de 500 metros do local onde hoje se encontra a Livraria Lello. Vamos conhecer um pouco melhor essa história.

Foto: Pedro Nuno Caetano

Presença secular

A presença de judeus na Península Ibérica data do tempo do Império Romano. Foram objeto de descriminação no período visigótico (séculos V a VIII), o que ajuda a explicar a simpatia com que acolheram os muçulmanos, chegados à península em 711, e se integraram na sociedade do “al-Andalus”. Mas tal não impediu que tivessem colaborado, também, com os primeiros reis portugueses, durante a chamada Reconquista cristã.

Findas as guerras da Reconquista, em 1250, foram criadas feiras-francas um pouco por todo o lado. Com a expansão do comércio, a presença dos judeus estendeu-se a todas as cidades e vilas minimamente importantes do país. No século XV, existiam cerca de 140 judiarias, as comunidades autónomas de judeus.

Para além das residências dos seus habitantes, as judiarias incluíam sinagoga, açougue, tribunal e cemitério. Alguns judeus desempenharam cargos importantes na administração do reino, especialmente durante a primeira dinastia (1139-1383), tais como almoxarife-mor do reino (semelhante a ministro das Finanças, nos dias de hoje) e físicos (médicos) reais. Outros ocupavam-se de ofícios artesanais (ourives, alfaiates, sapateiros, mecânicos), comerciais (algibebes, feirantes), científicos (astrónomos) e financeiros (prestamistas, cambistas). Os judeus constituíam, sem dúvida, o grupo social minoritário mais dinâmico, culto e evoluído da, em geral, atrasada sociedade portuguesa da época.

Sendo, por regra, abastada, à comunidade judaica era aplicada uma carga tributária particularmente pesada. Para além disso, nenhum judeu que possuísse mais de 500 libras se poderia ausentar do país sem consentimento do próprio rei.

A antipatia que os cristãos nutriam pelos judeus, mais do que por motivos religiosos, era motivada por uma certa inveja pela sua prosperidade económica. Os banqueiros e prestamistas eram, por regra, judeus, o que lhes atraía a fama de usuários, avarentos e gananciosos.

No Porto, há notícias de quatro núcleos onde se concentraram comunidades judaicas, sendo a maior e mais importante a judiaria do Olival.

De judeus a cristãos-novos

Por ordem de D. João I de 1386, todos os judeus do Porto foram concentrados numa zona dentro da cerca de muralhas, no monte do Olival. A Judiaria do Olival constituiu um autêntico gueto e funcionou durante 111 anos. Era delimitada por um muro alto que contornava as atuais ruas da Vitória, das Taipas, travessa do Ferraz e rua dos Caldeireiros. Estabeleceu-se em torno de um eixo central, com dois portões de ferro nas extremidades que se fechavam ao anoitecer. A partir do arruamento central – que hoje constitui a rua de São Bento da Vitória – emanavam algumas ruas perpendiculares, das quais a mais importante é a atual rua de São Miguel.

Em 1481, os Reis Católicos de Espanha – Isabel de Castela e Fernando de Aragão – começaram a hostilizar os judeus, o que leva muitos deles a procurarem refúgio em Portugal. Por ordem de D. João II, de 1492, trinta famílias de judeus espanhóis, liderados por Isaac Aboab, rabino-mor de Castela, são acolhidas na judiaria do Olival, no Porto. Ao contrário do ocorrido em Braga, Leiria ou Lisboaa, não há referências documentais a atos de violência de cristãos contra judeus no Porto.

No entanto, imitando o que os Reis Católicos tinham feito anteriormente, a 5 de dezembro de 1496, D. Manuel ordenou que, no prazo de um ano, todos os judeus se convertessem ao cristianismo, sob pena de expulsão do reino. Muitos judeus do Porto viram-se obrigado a partir para outros locais, nomeadamente para diversos destinos europeus (Amsterdão, Bordéus, Itália), Marrocos e Turquia. Outros, no entanto, preferiram ficar no Porto e converter-se ao cristianismo, agindo socialmente como verdadeiros cristãos (cristãos-novos), mas conservando as suas tradições e práticas religiosas em segredo. Ao longo de séculos, os cristãos-novos tornaram-se num dos grupos em que mais incidiu a ação persecutória da Inquisição.

A saída dos judeus teve um impacto negativo na economia da cidade. Os burgueses do Porto, cidade mercantil, reagiram contra a expulsão dos judeus, porque logo se deram conta do prejuízo que tal medida ia causar. No último quartel do século XVI assiste-se, no Porto, a uma crise da banca e do comércio em geral, relacionada com as perseguições religiosas e a ação da Inquisição.

Vestígios da permanência judaica

A Inquisição só foi extinta em Portugal em 1823. Nas décadas seguintes, começou a surgir uma pequena comunidade judaica constituída por estrangeiros com ou sem ascendência sefardita. Tal comunidade, assumiu a sua existência legal após a Constituição republicana de 1911.

Na década de 1920, são identificadas pequenas comunidades no interior de Portugal que ainda mantinham práticas judaicas clandestinas, embora já com muitas interferências cristãs. Figura de grande destaque na recuperação do judaísmo em Portugal foi Artur Barros Basto (1887-1961), capitão do exército português de ascendência judaica, que foi o responsável pela construção da sinagoga do Porto – a maior da Península Ibérica –, inaugurada em 1939.

Em 1996, para recordar a presença dos judeus na antiga Judiaria do Olival, numa parede do Mosteiro de São Bento da Vitória, foi colocada uma lápide comemorativa de granito preto lembrando a permanência de cinco séculos dos judeus na cidade do Porto e a sua expulsão abrupta e/ou conversão forçada.

Em 2003, durante as obras num antigo prédio localizado no número 9 da rua de São Miguel, oculto sob a parede, foi descoberto um “hekhal” ou “aron”, o armário onde se guardavam a Torá e outros artefactos sagrados do rito judaico. Como se trata de uma construção do século XVI ou até XVII, isto quer dizer que, muitas décadas após a conversão forçada ao cristianismo, o judaísmo estava ainda vivo na comunidade, apesar dos ritos terem de ser conduzidos com o máximo secretismo. A sinagoga secreta da rua de São Miguel, a 500 metros da Livraria Lello, é um testemunho da persistência do culto judaico no Porto muito para além de édito de expulsão.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.