José Marques da Silva, o arquiteto que moldou a fisionomia do Porto

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

A escassas dezenas de metros da Livraria Lello há dois edifícios que passam despercebidos ao transeunte mais apressado, mas que são bem emblemáticos da obra de um dos arquitetos mais profícuos da cidade do Porto. Referimo-nos ao edifício das Quatro Estações e ao chamado Palácio do Conde de Vizela, ambos do arquiteto José Marques da Silva (1869-1947).

O primeiro, no n.º 100 da Rua das Carmelitas, chegou mesmo a ser habitado pelo próprio Marques da Silva. Ostenta quatro relevos representativos das quatro estações do ano, encimando cada uma das pilastras que marcam o alçado. Trata-se de um projeto de 1905, com uma fachada “beaux-arts” – estilo arquitetónico clássico, também conhecido como academismo francês, combinando influências gregas e romanas com ideias renascentistas.

Um pouco mais abaixo, e ocupando todo o quarteirão, fica o Palácio do Conde de Vizela, construído para alojar os escritórios da Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela, lojas comerciais e o Clube Portuense. Inicialmente, foi mandado projetar a Émile Boutin por Diogo José Cabral (1864-1923), grande capitalista do Norte do país e primeiro conde de Vizela. Entre 1920 e 1923, Marques da Silva assume a direção da obra, introduzindo um aditamento ao projeto, ajustando-se a uma nova tipologia e imprimindo reformulações compositivas que valorizaram esteticamente o edifício e o quarteirão.

Beaux-arts

Tendo iniciado a sua formação como arquiteto na Academia Portuense de Belas-Artes, José Marques da Silva – portuense, nascido em 1869, na Rua de Costa Cabral – ingressou na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, desenvolvendo trabalho no ateliê de Victor Laloux, autor da Gare d’Orsay, estação ferroviária, hoje transformada em museu. Terminou o curso em 1896, apresentando um projeto para uma estação ferroviária central do Porto.

Marques da Silva sabia que a edilidade portuense não estava satisfeita com o comboio em Campanhã e que queria trazê-lo para o centro da cidade, tendo para tal demolido o antigo mosteiro de São Bento da Ave-Maria.

Regressado ao Porto, com o canudo de “Arquiteto Diplomado pelo Governo Francês” debaixo do braço, Marques da Silva apresentou o seu projeto da estação ferroviária à Câmara Municipal do Porto. Era um projeto à medida das necessidades da cidade, deixando transparecer a influência da gare d’Orsay de Victor Laloux. Mas teve de desenvolver várias versões de projeto, submetendo-se aos ditames de comissões sucessivas, até à sua aprovação final e construção.

Marques da Silva é também o autor do Teatro de São João que hoje conhecemos. No mesmo local existia uma casa de espetáculos inaugurada em 1798, idêntica ao Teatro de São Carlos, em Lisboa. Ardeu completamente em 1908, não havendo, felizmente, vítimas a registar. Demonstrando uma mestria única, Marques da Silva apresentou um edifício-monumento que organiza e dá coerência à irregularidade urbana que constitui a Praça da Batalha. Recorrendo a um ecletismo estético muito próprio, Marques da Silva segue o desenho clássico do teatro à italiana, mas organiza os espaços – átrios, escadas, salão nobre – à francesa, seguindo o modelo da Ópera Garnier, e uma imponente frontaria guarnecida por quatro colunas jónicas.

Aberta há cem anos, como nova “sala de visitas” cidade, a Avenida dos Aliados ostenta claramente o traço de Marques da Silva. O seu arranque é demarcado por dois edifícios monumentais marcados por uma extraordinária filigrana decorativa: A Nacional e edifício Pinto Leite. São edifícios aproveitam as potencialidades oferecidas pela nova tecnologia construtiva do betão armado.

Uma das últimas obras de Marques da Silva foi a Casa de Serralves, terminada em 1943. Partiu de um projeto solicitado pelo conde de Vizela, partindo da ampliação da velha moradia da família. Marques da Silva foi acompanhando o projeto até ao fim, mas sabemos que resultou do contributo de vários arquitetos e decoradores franceses, nomeadamente Émile-Jacques Ruhlmann, Charles Siclis, Jacques Gréber e Alfred Porteneuve.

Legado

Sendo um arquiteto completo, Marques da Silva foi responsável por muitos outros projetos na cidade do Porto e fora dela. Projetou escolas (Rodrigues de Freitas e Alexandre Herculano), igrejas (São Torcato e Penha, em Guimarães), jazigos (no Cemitério da Lapa, onde está sepultado), bairros operários (na Constituição). Lecionou no Instituto Industrial e Comercial do Porto, na Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis e na Escola de Belas-Artes do Porto, onde foi diretor.

Marques da Silva soube interpretar, como poucos, os desejos de uma cidade em crescimento e com uma clara necessidade de afirmação – como era o Porto na transição do século XIX para o XX –, apresentando soluções concretas para os muitos problemas urbanos, moldou a fisionomia da urbe. Desenvolveu um modo muito próprio de interpretar a construção da cidade, adaptando os valores da tradição às mecânicas da vida moderna. Deixou um legado duradouro na cultura arquitetónica portuense, nas práticas de ensino e numa certa forma de fazer e pensar a arquitetura que se foi consolidando no Porto ao longo do século XX.

Faleceu em 1947, na sua residência na Praça do Marquês de Pombal, onde atualmente funciona a Fundação Instituto Arquiteto José Marques da Silva (FIMS). Criada em 2009, esta fundação tem como missão a promoção científica, cultural, formativa e artística do património arquitetónico de Marques da Silva.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.