Ir a banhos na Foz – A época estival está aí e com ela o apelo da praia

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Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

A praia como local de lazer foi uma das primeiras manifestações do turismo, hoje em dia considerado uma indústria global. Scarborough é considerada a primeira estância de veraneio. Na década de 1720, esta cidade inglesa do Mar do Norte, começou a ser procurada pela aristocracia de Yorkshire que, para além das termas, foi dando preferência aos locais à beira-mar por motivos de saúde e lazer.

Alguns anos mais tarde, Brighton, a sul de Londres, passa a ser a estância balnear de referência. Muito devido ao patrocínio do rei Jorge IV e à rápida ligação ferroviária à capital britânica, a ida a banhos vai-se popularizando acompanhada da abertura dos primeiros hotéis.

Do Reino Unido, a moda estende-se à Europa continental. As águas tépidas do Mediterrâneo, nomeadamente as da chamada Riviera Francesa, atraem as casas reais e a grande aristocracia europeias. E, atrás delas, as massas populares.

A praia do Porto

Praia na Foz do Douro em 1930
Foto: CMP, Arquivo Histórico Municipal

É conhecida a secular preponderância da comunidade britânica na vida da cidade do Porto, mormente devido ao comércio do vinho. No Porto, as praias mais próximas sempre foram as da Foz do Douro. Mas a história da Foz é bem mais antiga. Em 1145, D. Afonso Henriques faz a doação de uma ermida em São João da Foz que, no século seguinte, passaria para o mosteiro beneditino de Santo Tirso. O Couto da Foz confinava com o concelho de Bouças (Matosinhos), a norte, e com o do Porto, a nascente.

Ainda antes de acordar como estância de veraneio, a Foz do Douro iria viver um período áureo, graças à ação do primeiro mecenas de tipo renascentista em Portugal, D. Miguel da Silva. Nobre, embaixador em Roma, bispo de Viseu e cardeal da Igreja Católica Romana, na primeira metade do século XVI, D. Miguel pretendeu monumentalizar a Foz do Douro como local emblemático e de auxílio à navegação. Através do arquiteto italiano Francesco de Cremona, mandou construir o farol de São Miguel-o-Anjo – considerado o farol mais antigo da Europa que chegou até nós com a sua estrutura intacta – e uma grande igreja renascentista – considerada a primeira manifestação de arquitetura renascentista no Norte de Portugal.

A Guerra da Restauração (1640-1668), no entanto, impos o sacrifício deste templo em favor de uma fortaleza para defesa da barra do Douro – a fortaleza de São João da Foz –, com a antiga nave da igreja a dar lugar à praça de armas do aquartelamento

Em 1834, as ordens religiosas são extintas em Portugal. É criado um concelho da Foz do Douro, com freguesia única, e paços do concelho no largo fronteiro à capela de Santa Anastácia. De vida curta, já que, 18 meses passados, o concelho da Foz seria integrado no do Porto.

A moda dos banhos

Praia da Foz do Douro, 1960
Foto: CMP, Arquivo Histórico Municipal

De pacata aldeia de pescadores e antigo couto do mosteiro de Santo Tirso, São João da Foz ganhou importância acrescida a partir de meados do século XIX, quando “ir a banhos” começou a ser moda também entre nós.

Do centro do Porto, viajava-se para a Foz de carroça ou de burro. Em 1870, o barão de Trovisqueira consegue autorização para «estabelecer à sua custa, na estrada pública entre o Porto e a povoação da Foz, um caminho de ferro para transportes de passageiros e mercadorias, servido por cavalos». Dois anos depois, surge o “americano” que, pela marginal do rio, fazia uma viagem do Infante à Foz em apenas 25 minutos. Mais dois anos depois, cria-se uma nova ligação à Foz, entre a praça de Carlos Alberto e o largo de Cadouços, via rotunda da Boavista. Esta recorria, para além do “americano”, também à “máquina”, veículo a vapor a circular pela via pública.

A atração pela praia vai ser responsável pela criação de novas vias de acesso e pelo desenvolvimento dos transportes públicos para a zona ocidental da cidade do Porto. Mas, rapidamente, membros da comunidade britânica e algumas famílias mais abastadas do burgo começaram a construir casas de férias na Foz, com a época balnear a prolongar-se entre agosto e outubro.

A 21 de novembro de 1862, Ramalho Ortigão escreve «graças a Deus, os últimos banhistas regressam à cidade que suspirava por eles. As meninas vêm nutridas, acrescentadas de boa cor e notavelmente satisfeitas, o que denota por certo mais saúde, mas produz também muito menos interesse poético do que a melancólica palidez com que nos deixaram». Mas alguns resistem até tarde e prolongando os prazeres do verão pelo outono dentro.

A Foz cresce. Em 1840 havia apenas duas hospedarias, um café e um clube. Quarenta anos depois havia já dois restaurantes, três teatros, cinco cafés, sete hotéis e 35 banheiros responsáveis por “aplicarem” os banhos.

O dia do banhista

Praia do Molhe, c.1930
Foto: CMP, Arquivo Histórico Municipal

Pelos relatos de Ramalho Ortigão e de Alberto Pimentel, podemos reconstituir como seria um dia de praia nos finais do século XIX. O dia era, quase ritualmente, compartimentado em três períodos fundamentais: o do banho, o do passeio e o dos contactos sociais.

O banhista punha-se de pé muito cedo, ao romper da aurora. Com a família, ia em cortejo até à praia. Era o período do banho. Recorria a uma barraca – normalmente de lona branca – para proceder à muda de roupa «vestido de cauda para as senhoras, camisolas e calças para os homens». Nos braços experimentados do banheiro, o banhista era mergulhado nas águas frias do Atlântico uma, duas ou três vezes, conforme a vontade e a coragem de cada um. Em alternativa, havia o banho de “choque”: dois banheiros transportavam o banhista numa cadeirinha e, de forma concertada, mergulhavam-no sem este esperar, devolvendo-o rapidamente ao areal. Os menos afoitos preferiam a “gamela” que lhes era despejada pela cabeça. Completava-se o episódio do banho.

Seguia-se a primeira refeição do dia: o almoço (a que nós hoje chamamos pequeno-almoço). Café com leite e pão com manteiga fresca. Depois era apanhar sol, descansando-se sobre mantas estendidas na areia ou sentados em pequenas cadeiras. Toda a família estava aí reunida: avós, pais, filhos, tios, primos. Conversava-se, observava-se os outros banhistas e ouvia-se tocar o ceguinho, enquanto jovens galãs faziam olhinhos a donzelas casadoiras. E assim passava a manhã. Regressava-se a casa para o jantar (o almoço de hoje). De tarde, cumpriam-se tarefas do lar, dormia-se a sesta.

Mais para o fim da tarde, iniciava-se o período do passeio que se cruzava com o dos contactos sociais. Observa-se os pescadores a comporem as redes, passeava-se pelo Passeio Alegre (ajardinado em 1888), contemplava-se o pôr do sol. Às vezes, recorrendo ao aluguer de burros, empreendiam-se excursões até Leça ou até um pinhal próximo para um piquenique. Outros, especialmente os membros da comunidade britânica, dedicavam-se às atividades físicas. O foot-ball ou o lawn-tennis eram alguns dos desportos praticados. Outras vezes, a tarde era ocupada com reuniões na assembleia, no clube ou nos cafés para conversar, jogar bilhar ou às cartas, ouvir declamar ou tocar piano.

Depois da ceia (a que hoje chamamos jantar) eram as soirées musicais, poéticas ou dançantes ou o jogo. A roleta era a grande febre de época dos banhos. Apesar de proibido, todos os cafés e clubes tinham entradas misteriosas para salas de jogo repletas de fumo. Decorriam assim os dias nesta Foz dos finais do século XIX, numa fase em que os banhos de mar deixaram de ter finalidade apenas terapêutica e a componentes social foi ganhando importância crescente.

Apesar de pertencer ao Porto, a Foz do Douro mantém um certo cariz próprio. Helder Pacheco, em 1984, escrevia que a Foz «apesar de pertencer à cidade desde 1836, continua a ser uma localidade estranha aos costumes e à paisagem que os tripeiros consideram como Porto. Os naturais da Foz, os mais velhos, sempre dizem – quando se deslocam ao centro – ‘vou ao Porto’».

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.