O Infante de Sagres que, afinal, era do Porto

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

É popularmente conhecido como O Navegador. Aqui nasceu, aqui voltou para pedir naves, carnes e gentes. Envolveu-se na conquista das praças africanas, no povoamento das ilhas atlânticas e no dilatar do mundo conhecido. Estando no centro de tudo, permaneceu uma pessoa enigmática e isolada. Vamos saber mais…

Nascido numa quarta-feira

Nasceu a 4 de março de 1394, uma quarta-feira, dia então considerado pouco propício ao nascimento de uma criança. Era o quinto filho do rei D. João I, fundador da dinastia de Avis, e de Dona Filipa de Lencastre.

Nasceu, segundo se crê, no edifício da Alfândega, hoje Casa do Infante, no Porto. Henrique foi o nome pelo qual foi batizado, possivelmente em honra do seu tio materno, o duque Henrique de Lencastre que mais tarde seria Henrique IV, rei da Inglaterra.

Alguns anos depois, o Infante voltou ao Porto. Tinha 20 anos e vinha incumbido de uma missão muito específica: organizar uma frota de navios e aparelhá-los devidamente para uma missão que ninguém sabia qual era. Durante um ano, os estaleiros das praias de Miragaia e Lordelo não pararam, sendo construídas cerca de 100 embarcações. Para as preparar para a misteriosa viagem, foram abatidos todos os porcos e todas as vacas da cidade e redondezas, salgando-se as suas carnes em barricas colocadas nos porões dos barcos. Aos portuenses não ficaram mais do que as rezes dos animais, o que terá despertado o instinto de sobrevivência e o espírito criativo gastronómico, desenvolvendo-se as célebres tripas à moda do Porto.

A esquadra saiu da barra do Douro, com marinheiros do Porto, e foi-se juntar a outra que estava a ser preparada no rio Tejo. Um total de 270 navios e 30 mil homens de armas – com o rei D. João I e os seus filhos a bordo – partiram em rumo ao Norte de África. Só no mar alto foi revelado a todos que o alvo da operação seria a cidade fortificada de Ceuta, importante ponto estratégico e entreposto comercial.

Na conquista de Ceuta, ele e aos seus irmãos – D. Duarte, D. Pedro – foram armados cavaleiros por feitos de guerra. O Infante tinha então 21 anos, recebendo, também, os títulos de senhor da Covilhã e de duque de Viseu.

Entre 1419 e 1420 os seus escudeiros João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira desembarcaram nas ilhas do arquipélago da Madeira, que já eram conhecidas dos navegadores portugueses.

Por essa altura, D. Henrique foi nomeado grão-mestre da Ordem de Cristo – titular em Portugal do património da antiga Ordem dos Templários –, cujos recursos foram decisivos na fase inicial dos Descobrimentos.

À Madeira sucedeu o arquipélago dos Açores, ilhas também desabitadas que foram depois povoadas pelos portugueses.

No Norte de África, o Infante foi um dos principais organizadores da conquista de Tânger em 1437, que se revelou um grande fracasso. O seu irmão mais novo, D. Fernando, foi capturado e ali mantido prisioneiro durante 11 anos, até falecer.

Até essa época, o cabo Bojador (na costa do atual Sara Ocidental, território controlado por Marrocos) marcava o fim do mundo conhecido. Coube a Gil Eanes comandar uma expedição que o ultrapassou pela primeira vez, em 1434, dissipando os medos quanto ao que estaria para lá desse cabo.

A caravela

As expedições adquiriram um grande impulso com o desenvolvimento de um novo tipo de embarcação: a caravela.

O cabo Branco foi atingido em 1441 por Nuno Tristão e Antão Gonçalves e, dois anos depois, a baía de Arguim, onde foi erguida uma feitoria. Dinis Dias chegou ao rio Senegal e dobrou o cabo Verde em 1444.

Henrique começou a beneficiar do acesso às riquezas africanas. Em 1452, a chegada de ouro foi já suficiente para que se cunhassem os primeiros cruzados. Por essa altura, descobria-se o arquipélago de Cabo Verde que, tal como a Madeira e os Açores, se encontrava desabitado.

Em 1460, à data da morte do Infante D. Henrique, a costa ocidental africana estava já explorada até ao que hoje é a Serra Leoa.

O Infante morreu solteiro, sem se conhecer qualquer descendência. Nomeou como principal herdeiro o seu sobrinho, o segundo filho do seu irmão D. Duarte, entretanto já falecido, o Infante D. Fernando. Duque de Beja, a partir dessa altura passou também a ser Duque de Viseu.

Hoje, o Infante D. Henrique é recordado no Porto em variadíssimos locais. Para além da Casa do Infante, temos uma Rua do Infante D. Henrique, uma Praça do Infante D. Henrique – no centro da qual se encontra um Monumento ao Infante D. Henrique, erguido por ocasião do 5.º centenário do seu nascimento – e ainda um magnífico painel de azulejos decorando o “hall” da estação ferroviária de São Bento, da autoria de Jorge Colaço, que eterniza o jovem Infante empenhado na conquista de Ceuta.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.