Igrejas do Carmo e dos Carmelitas

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

A escassos 100 metros da Livraria Lello fica um raro conjunto monumental, classificado como monumento nacional desde 2013. Falamos das igrejas gémeas dos Carmelitas e do Carmo. Vamos saber mais…

 

“A implantação geminada de duas igrejas constitui uma raridade no panorama urbano nacional, constituindo uma cenografia de grande impacto visual na zona nobre do Porto setecentista, marcado pelo espírito do urbanismo iluminista” – refere o decreto de 2013 que institui a classificação de monumento nacional ao conjunto. Na verdade, esta disposição lado a lado permite observar dois edifícios de grande qualidade, ilustrativos da evolução histórica da arte em Portugal.

 

Monte Carmelo

Originalmente chamada Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, mais conhecida simplesmente como Ordem do Carmo ou dos Carmelitas surgiu, como ordem religiosa católica, no final do século XI no Monte Carmelo, próximo da atual cidade de Haifa, em Israel.

Conta a tradição que o profeta Elias se instalou numa gruta do Monte Carmelo, adotando uma vida ascética de oração e silêncio. Nele, e no seu modo de vida, se inspiraram os primeiros religiosos da ordem. Em 1226, a regra da Ordem do Carmo foi aprovada pelo papa Honório III.

No século XVI, Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz conduziram um processo de renovação da Ordem do Carmo que deu origem a um novo ramo – os carmelitas descalços – autonomizado pelo papa Clemente VIII, em 1593.

No Porto, os carmelitas descalços surgiram em 1617. Dois anos depois, receberam um terreno no Campo do Olival para erguer o edifício do Convento de Nossa Senhora do Carmo. Com a primeira pedra lançada a 5 de maio de 1619, a obra ficou concluída em 1622, beneficiando de donativos de aristocratas, mercadores e da própria Câmara do Porto. O edifício do antigo convento é hoje ocupado pelo Comando Territorial do Porto da Guarda Nacional Republicana.

A igreja, erguida do lado nascente do convento, representa um bom exemplo de fachada maneirista erudita. Apresenta planta em cruz latina abobadada com uma nave única precedida por nártex. A frontaria clássica, ritmada pelos três arcos da entrada, encimados por nichos que albergam imagens de São José, de Santa Teresa e de Nossa Senhora do Carmo. A fachada é rematada por um frontão triangular que ostenta o brasão da ordem religiosa sob a coroa real.

O seu interior contém um valioso património retabular barroco e rococó, em notável estado de conservação e integridade. Inclui um órgão de tubos e um retábulo-mor de José Teixeira Guimarães, grande mestre entalhador da segunda metade do século XVIII.

Alessandro Bonvini

Ordem primeira e ordem terceira

Ao lado da igreja da ordem primeira dos carmelitas descalços fica a igreja da ordem terceira.

Mas, antes de falarmos do templo, será útil explicar o que é uma “ordem terceira”. Segundo a tradição das ordens religiosas católicas, a primeira ordem a ser estabelecida, destinada exclusivamente a homens (monges, frades), era designada por “ordem primeira”. Seguidamente, era criada a “ordem segunda”, destinada a mulheres (monjas, freiras). Por último, podia também vir a ser fundada uma “ordem terceira”, destinada a leigos.

As ordens terceiras eram associações cujos membros não tinham a obrigação de abandonar o seu modo de vida habitual, mas que se dedicavam ao apostolado e à busca da perfeição cristã sob a alta direção desse instituto religioso.

Isto surgiu em 1212, quando São Francisco de Assis começou a integrar seculares na ordem franciscana, obtendo aprovação pontifícia. Entre outros, seguiram o mesmo exemplo, os dominicanos (1406), os agustinhos (1409) e os carmelitas (1452).

No Porto, a igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo foi construída entre 1756 e 1768, mesmo ao lado da igreja da ordem primeira dos carmelitas descalços. Segue um projeto de Figueiredo Seixas, nome fundamental da arquitetura nortenha entre o barroco e o neoclássico, com algumas alterações com o cunho de Nicolau Nasoni.

“Trata-se de uma fachada exemplar do barroco pleno, na linha da estética contrarreformista então vigente. O património retabular, igualmente excecional, foi desenhado por um dos maiores mestres entalhadores portugueses, Francisco Pereira Campanhã, correspondendo a uma obra de referência da estética rococó” – assinala o decreto que reconheceu o templo como monumento nacional.

Em 1912, a fachada lateral da Igreja do Carmo foi revestida por um grandioso painel de azulejos, representando cenas alusivas à fundação da Ordem Carmelita e ao Monte Carmelo. A composição foi desenhada por Silvestre Silvestri, pintada por Carlos Branco e executada nas fábricas do Senhor do Além e da Torrinha, em Vila Nova de Gaia.

Entre as duas igrejas existe aquela que é muitas vezes considerada a casa mais estreita do Porto. Trata-se de um espaço pertencente à igreja da ordem terceira que dá acesso à torre sineira que, curiosamente, fica ao lado da igreja dos carmelitas descalços. Para tocar os sinos, o sineiro tinha que subir três andares e passar por cima da abóbada a igreja da ordem primeira até alcançar a torre.

O impacto cenográfico de todo o conjunto – complementado pelo enorme painel de azulejos – não passa despercebido aos milhares de turistas que, incessantemente, registam fotograficamente esta raridade de grande impacto visual na cidade do Porto.

 

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.