Fonte dos Leões

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

A poucos metros da porta da Livraria Lello, fica uma praça que, apesar de oficialmente se designar por Gomes Teixeira, toda a gente no Porto a conhece como Praça dos Leões. Este nome vem de uma fonte que está aqui instalada, há mais de 130 anos: a Fonte dos Leões. Vamos saber mais…

A praça foi rasgada há quase 400 anos, mais concretamente em 1619, ano da fundação do vizinho convento dos padres carmelitas descalços. Algumas décadas mais tarde, foram erguidos o Colégio dos Órfãos (1651) e o Recolhimento do Anjo (1672), junto do qual se construiu a igreja de Nossa Senhora da Graça. Devido à proximidade com aquelas instituições, a praça adotou as denominações de Largo dos Meninos Órfãos e Largo do Colégio de Nossa Senhora da Graça.

Da Academia à Universidade

O recolhimento e a igreja da Graça seriam demolidos para a construção do edifício da Academia Real de Marinha e Comércio. A instituição, fundada em 1803 pelo príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI), teve projeto de Carlos Amarante. Em 1837, pela reforma de Passos Manuel, a instituição passou a Academia Politécnica do Porto.

Em meados do século XIX, o local era popularmente conhecido como Praça do Pão ou Largo da Feira da Farinha, por se fazer ali um mercado deste tipo. No entanto, por deliberação camarária de 1835, o largo passou a designar-se oficialmente por Praça dos Voluntários da Rainha, homenageando este batalhão do exército liberal durante o Cerco do Porto.

O imponente edifício da Academia, cuja construção se iria prolongar ao longo de todo o século XIX, e a vida estudantil que em seu redor se desenvolveu passaram a marcar profundamente a praça. A partir de finais do século, esta tornar-se-ia, também, um importante centro comercial da cidade, beneficiando da proximidade da zona das Carmelitas, área comercial de prestígio na sequência da urbanização da cerca do antigo Convento das Carmelitas Descalças, entretanto demolido. Os lisboetas Grandes Armazéns do Chiado abriram aqui uma sucursal onde, em 1907, começou a funcionar um grande animatógrafo, com capacidade para aproximadamente mil pessoas.

No mesmo edifício, na esquina com a Rua das Carmelitas, em 1910, abrem os Armazéns do Castelo, estabelecimento que continua a funcionar na atualidade com a mesma designação e no mesmo local. Outro estabelecimento comercial relevante na praça é o dos Armazéns Cunhas, também ainda em funcionamento.

Em 1911, com a criação da Universidade do Porto, o edifício da antiga Academia passou a albergar a Reitoria da nova universidade, bem como a Faculdade de Ciências e a, na época, Escola de Engenharia. Na madrugada do dia 20 de abril de 1974, um devastador incêndio destruiu parte do edifício, o que levou a reitoria a mudar-se para a Rua de D. Manuel II, só regressando às antigas instalações na praça em 2006. Foi ao primeiro reitor da universidade, Francisco Gomes Teixeira, que a praça foi buscar o nome que atualmente ostenta: Praça de Gomes Teixeira.

Béria L. Rodríguez

A fonte francesa

Muito do prestígio e notoriedade da praça advém da magnifica fonte que a decora.

O concurso público para o abastecimento de água à cidade do Porto iniciou-se em 1880 e teve como único interessado a firma francesa Compagnie Générale des Eaux pour l’Etranger. O contrato com esta companhia foi firmado pelo próprio rei D. Luís e pelo ministro Fontes Pereira de Melo e incluía a obrigação desta construir uma fonte monumental na Praça dos Voluntários da Rainha.

Todavia, o processo não foi de fácil implementação, já que a Câmara do Porto não aprovou o projeto apresentado pela empresa francesa. Foi só ao fim de sete propostas que foi finalmente dada a anuência para a construção do novo chafariz.

Trata-se de uma fonte monumental, com 8 metros de diâmetro e 6 metros de altura. É composta por um tanque octogonal, de bordos arredondados e paredes exteriores de perfil ondulado. A fonte central é de bronze pintado com quatro leões alados e sentados nas extremidades. Está encimada por duas taças redondas sobrepostas e escalonadas. A inferior tem um friso vegetalista e cornetas de onde jorra água e, no remate, apresenta uma espécie de pinha. Para além da sua função decorativa, a fonte funcionava como elemento de passagem para ventilação e oxigenação das águas e para aliviar a pressão das condutas.

Atualmente há quem defenda que a Fonte dos Leões inspirou J.K. Rowling – a autora da saga Harry Potter, que viveu no Porto entre 1991 e 1993 – na criação da Casa Gryffindor, que tem um leão como símbolo.

Verdade ou fantasia, o facto é que a beleza do local e a sua carga histórica justificam plenamente um passeio por esta agradabilíssima praça do Porto com quatro séculos de existência.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.