Entrevista (ficcionada) a Sophia de Mello Breyner

Categoria

Guias do Porto

Autor

Livraria Lello

Esta entrevista não aconteceu, mas podia ter acontecido. É mera construção, dirão, mas o que não o é na literatura? Pensámos em perguntas que gostaríamos de ter feito e as respostas nasceram da colagem de excertos da obra. Porque é com a leitura que descobrimos o que procurávamos, o que procurar. E que sempre estará lá.

– Para que serve a poesia?
Que presença jamais pode cumprir o impulso que há em nós, interminável, de tudo ser e em cada flor florir? Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o exterior o medo. E é como se um poema fosse nada… (Pausa) Houve instantes de força e de verdade. O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam. A limpeza é uma arte poética e uma forma de honestidade. E por isso em cada gesto ponho solenidade e risco. Nunca mais te poderás sentir invulnerável, real e densa, pois trazes nos teus dedos a sombra, o silêncio e os segredos, a perfeição, a pureza e a harmonia.

– O que sacrificou para poder escrever?
Não se perdeu nenhuma coisa em mim. A dicção não implica estar alegre ou triste. (Pausa) Às vezes julgo ver nos meus olhos a promessa de outros seres que eu podia ter sido, se a vida tivesse sido outra. Odiei o que era fácil, procurei-me na luz, no mar, no vento. Deito-me tarde, espero por uma espécie de silêncio que nunca chega cedo. Mais do que tudo, odeio tantas noites em flor da primavera, transbordantes de apelos e de espera, mas donde nunca nada veio… Aprende a não esperar por ti, pois não te encontrarás. A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.

– Prefere ser lida por crianças ou adultos?
Não estás no interior dum fruto: aqui o tempo e o sol nada amadurecem. Nenhum gesto, nenhum destino é breve porque em todos estão asas inquietas. Um poema emerge tão jovem, tão antigo, que nem sabes desde quando em ti vivia. (Pausa) É possível que esta maneira esteja em parte ligada ao facto de, na minha infância, muito antes de eu saber ler, me terem ensinado a decorar poemas. Encontrei a poesia antes de saber que havia literatura. Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos… E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir. Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador. Mas isso era uma coisa que só a criança vira.

– Acha que devemos ver abaixo da linha do mar ou acima da linha do mar?
Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá é bonito. Pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos. Arranco o mar do mar e ponho-o em mim e o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.

– Rigor ou simplicidade?
O poema é a liberdade. Um poema não se programa. Porém, a disciplina – sílaba por sílaba – o acompanha. Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade. Transferir o quadro, o muro, a brisa, a flor, o copo, o brilho da madeira e a fria e virgem liquidez da água para o mundo do poema limpo e rigoroso. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição. Caminhamos na minúcia da busca, na atenção da busca. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o “obstinado rigor” do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exatamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exatamente vividos.

– Ulisses ou Calipso?
Nunca mais amarei quem não possa viver sempre, nunca mais servirei senhor que possa morrer. A minha esperança mora no vento e nas sereias. O revoltado, mesmo ingloriamente, nunca está completamente vencido. Os revoltados, mesmo aqueles a quem tudo dói como uma faca, aqueles que se cortam no ar e nos seus próprios gestos, são a honra da condição humana. Eles são aqueles que não aceitaram a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir.

– Uma última palavra?
Deixai-me limpo o ar dos quartos e liso o branco das paredes.

Referências
“[Às vezes julgo ver nos meus olhos]”, Poesia (1944)
“[Ir beber-te num navio de altos mastros]”, Poesia (1944)
“[Mais do que tudo, odeio]”, Poesia (1944)
“[Nunca mais]”, Poesia (1944)
“O jardim e a casa”, Poesia (1944)
“[Que poderei de mim mais arrancar]”, Poesia (1944)
“[A minha esperança mora]”, Dia do mar (1947)
“[As imagens transbordam fugitivas]”, Dia do mar (1947)
“Kassandra”, Dia do mar (1947)
“[As minhas mãos mantêm as estrelas]”, Coral (1950)
“[Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade]”, Coral (1950)
“[Ouve]”, Coral (1950)
A menina do mar (1958)
“Biografia”, Mar novo (1958)
“Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal”, Mar novo (1958)
“[Ó Poesia sonhei que fosses tudo]”, Mar novo (1958)
“As grutas”, Livro sexto (1962)
“Instante”, Livro sexto (1962)
“No poema”, Livro sexto (1962)
“O jantar do bispo”, Contos exemplares (1962)
“Praia”, Contos exemplares (1962)
“Retrato de Mónica”, Contos exemplares (1962)
“Arte poética II”, Geografia (1967)
“Escuto”, Geografia (1967)
“Espera”, Geografia (1967)
“Arte poética IV”, Dual (1972)
“Maria Helena Vieira da Silva ou O itinerário inelutável”, Dual (1972)
“O minotauro”, Dual (1972)
“Lagos I”, O nome das coisas (1977)
“Liberdade”, O nome das coisas (1977)
“Landgrave ou Maria Helena Vieira da Silva”, Ilhas (1989)
“O dia”, Ilhas (1989)
“O sol o muro o mar”, Ilhas (1989)
“Elegia”, Musa (1994)
“Arte poética”, O búzio de Cós e Outros poemas (1997)