Egas Moniz: uma história de dignidade imortalizada em azulejos

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Foto: Concierge 2C

São Bento é uma magnífica estação de caminho de ferro localizada no centro da cidade do Porto. Inaugurado há pouco mais de um século, o edifício foi projetado pelo arquiteto portuense José Marques da Silva (1869-1947) e erguido onde anteriormente se encontrava um mosteiro beneditino feminino.

O exterior da estação é lindo, refletindo a arquitetura francesa Beaux-Arts. No entanto, é o hall de entrada que deixa os visitantes pasmos de admiração. As paredes estão completamente cobertas com 20 mil azulejos, numa esplêndida composição que levou o seu autor, Jorge Colaço (1868-1942), 11 anos a concluir. Por isso, não foi surpresa quando, em 2011, a revista “Travel + Leisure” considerou São Bento como uma das mais belas estações ferroviárias do mundo.

A palavra “azulejo” derivada do árabe “az-zulayj” que significa “pedra polida”. Este facto deixa transparecer a incontornável influência árabe em muitas características dos azulejos, nomeadamente na infinita variedade de padrões geométricos multicoloridos que adornam interiores e exteriores de muitas construções, tanto nas paredes como nos pisos. Os azulejos também assumem frequentemente a forma de grandes murais azuis e brancos pintados à mão, retratando episódios religiosos ou eventos importantes da história portuguesa. É este o caso da estação ferroviária de São Bento.

Foto: Travelholic Path

Os azulejos de São Bento retratam paisagens, cenas etnográficas, bem como vários eventos históricos. Um delas é o encontro do cavaleiro Egas Moniz com Afonso VII, rei de Leão e Castela, no século XII. Naqueles tempos, Portugal ainda não existia como nação independente. O centro e o sul da Península Ibérica estavam, desde o século VIII, ocupados pelos muçulmanos. No Norte, vários reinos cristãos estavam a expandir-se para o Sul, num longo processo que ficou conhecido como “Reconquista”.

A parte norte do atual Portugal era então um condado – o Condado Portucalense – tributário do reino de Leão e Castela. Egas Moniz (1080-1146) era então o homem mais rico da região. O conde D. Henrique de Portucale (1066-1112) confiou a educação do seu filho Afonso Henriques (1109-1185) a Egas Moniz. Quando D. Afonso Henriques alcançou a maioridade começou a lutar pela independência de Portugal.

Descontente com esta situação, o rei Afonso VII de Leão e Castela, em 1127, pôs cerco a Guimarães, a capital do Condado de Portucale. Egas Moniz foi enviado para negociar com Afonso VII e prometeu que D. Afonso Henriques continuaria a ser seu vassalo. O cerco foi levantado.

No entanto, logo depois, D. Afonso Henriques voltou com a palavra atrás. Depois de derrotar os castelhanos, declarou Portugal uma nação independente, com ele como rei. Tendo dado a sua palavra de honra ao rei castelhano, Egas Moniz, juntamente com a sua família, foi até Toledo. Apresentou-se perante o rei com uma corda ao pescoço, oferecendo a sua vida e a dos seus como penhor a pagar pelo facto de não ter podido cumprir a palavra dada a Afonso VII. O rei castelhano, comovido com tanta honradez, perdoou-o e mandou-o de volta a Portugal em paz.

Hoje em dia, os historiadores sabem que este relato não passa de uma lenda, criada por um trovador descendente de Egas Moniz aspirando a aumentar o prestígio de seus antepassados. Seja como for, durante séculos a história do encontro de Egas Moniz com o rei castelhano foi constantemente lembrada em Portugal e mesmo ensinada nas escolas às crianças como um exemplo inestimável da importância de manter a palavra dada a todo o custo.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.