Do Saudoso Chico, dito “o fininho”.

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Rui Veloso
Foto: http://ruiveloso.com.pt/

Já se passaram 37 anos desde que conhecemos o Chico Fininho, nas palavras de Carlos Tê e na voz de Rui Veloso.
Entretanto, não foram só a brilhantina e o Lou Reed que desapareceram.
Parte do Porto sentido também já foi – juntamente com o ácido com muita estricnina – e, por favor, não se ofendam com a citação musical – pela retrete abaixo.

Onde foi o Chico?

Deve estar escondido algures num lugar obscuro da paradoxalmente luminosa Cantareira.
Na baixa não mete os pés, há algum tempo, isso é certo.
Já não reconhece os flipados de ginjeira, mesmo aqueles que, de novo, usam sapatos bicudos e brilhantina.
Nada se perde, tudo se transforma, já dizia o Lavoisier.
Como os quarenta são os novos vintes e o Porto é o Porto de sempre; os flipados de ontem são os hipsters de agora.
Do retro ético que ainda não sabia que o era, ao retro estético que não saber ser outro.
Sabemos que as hamburguerias de agora se anunciam como gourmet e já não se vêm a curar a ressaca. Também aí, o Big Mac cumpre a sua nobre função.
Às sobreviventes tascas acopla-se esse temível adjetivo da moda – h-i-p-s-t-e-r – como em modo de aperitivo para as sedentas novas cópulas regadas – como sempre o vêm sendo desde tempos imemoriais – a sucedâneos dionisíacos de várias medidas e valores.

As saudades do Chico.

O nosso eterno amigo Chico, o fininho sempre em vaivém entre o rio que é em baixo e a baixa que, afinal, até é alta – embora não fale línguas – chegou a aventurar-se na baixa, mas reconhece nos selfies stick um trauma da infância que só o pode deixar demasiado nervoso.
Lembra-se dos tempos em que os paus só serviam para bater nessa mesma baixa, bem mais deserta então. Deserta de hipsters, de retros, como de quase tudo o que se mexia após o sol se ir. Sem ser a estricnina, claro.
Enquanto voltava à periferia onde, depois de se ter feito homem na baixa, se acomodou pai de filhos; sentiu as saudades que pensava que já não tinha.
As saudades do Porto deserto, à noite exclusivo de fininhos como ele, mas sobretudo do Porto belo que – com sotaques que ele, afinal, sempre se habituou a imitar e a improvisar – brilhava ao sol como ele desde a sua meninice já não se lembrava que pudesse brilhar.

O Porto Sentido. O do Porto e o nosso.

O nosso Chico amava de amor sentido o seu Porto lunar com o qual fez história. Mas, ao voltar a este Porto de agora, percebeu que também ama – e muito – o Porto solar de que já se havia esquecido ter vivido em criança.
Ambos são, de uma e de outra maneira, o seu Porto sentido.
Um Porto cujo sentido continua pleno.
Na sua família, nos seus amigos, nos seus tascos, comércios e lugares improváveis onde ainda sobeja a essência Porto.
Essa essência do Porto sentido é tão do Chico como nossa. Por ser do Chico é que é nossa. E, sobretudo, por ser nossa é que é do Chico.
Se não for da Ribeira até à Foz, será da Boavista a Campanhã, passando pelo Bonfim.
Havemos sempre de fazer o nosso Porto – de o perpetuar – de uma maneira que é só nossa, embora, generosamente, decidamos partilhá-la com todos os outros.

Apenas por isso, por o sentirmos, pode o Porto ter uma marca que se pontua assim.

Olhó Chico na TV!

Lino Teixeira

Sobre o autor:

Lino Miguel Teixeira (1977) é licenciado em Relações Internacionais (área de especialização em Estudos Europeus) pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. É consultor de comunicação e estratégica de projetos de intervenção no território através dos eixos culturais e criativos. Atualmente é assessor do Gabinete do Ministro da Educação.