“Cozidinho de domingo”

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Depois de dias de trabalho pelo norte, aterro no Porto.

Um fim de semana no Porto.

Um domingo no Porto.

E entro no velho restaurante a cheirar a província e vem-me aquela estranha consolação de saber que, algures no mundo, por acaso aqui, por acaso numa esquina do Porto, há qualquer coisa que nunca muda.

Aqui é o oásis de todos os desertos, a bandeira branca de todas a guerras, a memória das velhas tias que fomos perdendo, a cor da infância que nos roubaram.

Talvez hoje já ninguém beba o “espumante Danúbio”, com que as damas antigas de fatos de anquinhas e os fidalgos de peruca brindam no painel de azulejos que cobre a parede—mas só isso deve faltar.

Se é que falta: o meu conhecimento de espumantes nunca foi grande, e sabe-se lá o que pode existir nas garrafeiras dos velhos restaurantes, mas tudo o mais está onde sempre esteve.

Aqui todos têm sempre muitas saudades nossas, contabilizam o tempo em que não aparecemos e querem saber a razão da nossa ausência, a saudinha está bem?, não está zangada connosco pois não? , antes assim, antes assim.

Aqui tratam-nos pelo nome, apertam-nos a mão, a nossa mesa está sempre à nossa espera, mesmo que a gente nem se lembre muito bem do lugar onde ela fica. Mas eles sabem, ali ao pé da janelinha, como a menina gosta.

Porque aqui somos sempre meninas.

Aqui temos sempre a idade que tínhamos quando pela primeira vez aqui viemos.

Aqui há sempre o cozido de domingo, que é sempre “o cozidinho”.

Aqui há sempre toalhas de linho branco, toalhas que duram eternidades, às vezes numa ou noutra há já uns ligeiros fios a tombar das bainhas, mas cheiram sempre a lavado e guardam sempre os vincos do ferro.

Aqui também nunca faltam os velhos casais. Andam devagar, sobem ainda mais devagar as escadas que levam ao primeiro andar, estão casados há muitos anos, há muitos anos que partilham domingos e cozidinhos e jarrinhos de tinto, e sabem que a felicidade é isso, essa rotina feita de silêncios cúmplices e passos cadenciados, e o empregado que pergunta pela família toda, e quer saber se está tudo bem, se é preciso mais alguma coisa, e se for é só dizer.

Às vezes os velhos casais trazem os netos para ensinar-lhes que pátria é este lugar onde há cozido ao domingo, e o ar cheira a coentros e a hortelã, e o soalho cheira a sabão e não a alfazema, rosa-chá ou limão verde como agora prometem os detergentes; este território inexpugnável de mesas quadradas de madeira e paredes forradas a corticite.

Os netos lá vão aguentando, esperando que o tempo passe muito depressa e aquele frete acabe, o que vale é que é que à noite vão divertir-se para a Ribeira com os colegas. Os netos são ainda muito novos e, decididamente, esta ainda não é a sua pátria. Até porque esta é uma pátria que se tem de merecer, como eu compreendi muito cedo, pelo meio das conversas das minhas velhas tias com o Sr. João Fernandes, que tinha uma loja de tecidos para o lado dos Clérigos, e era sempre o nosso cicerone pelas ruas do Porto.

Por isso os velhos casais sorriem e não dizem nada : sabem que um dia, quando os seus jovens já não forem tão jovens como isso, estarão ali, naquela mesma mesa, e se não for o cozidinho será um cabritinho ou então uns filetezinhos de polvo que estão uma maravilha, tal como os meninos gostam, e se for preciso mais alguma coisa é só dizer.

Alice Vieira

Sobre a autora:

Escritora portuguesa de livros infantis e juvenis, nascida em 1943. No domínio da literatura, ganhou em 1979 o Prémio do Ano Internacional da Criança, com Rosa, Minha Irmã Rosa. Tem publicado regularmente obras em volume – entre elas, Chocolate à Chuva (1982) e Graças e Desgraças da Corte de El-Rei Tadinho (1984) -, sendo paralelamente redatora do Diário de Notícias e responsável editorial por literatura para a infância e juventude. Em 1996 foi candidata ao Prémio Hans Christian Andersen pelo conjunto da sua obra, traduzida em várias línguas.