Cerco do Porto

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Decorrido entre 9 de julho de 1832 e 20 de agosto de 1833, o Cerco do Porto é o episódio capital das chamadas Guerras Liberais e marca o momento em que «acaba o velho Portugal e começa o novo», na expressão lapidar de Almeida Garrett.

Nos 13 meses em que durou o Cerco do Porto, e na guerra civil no qual se enquadra, digladiaram-se dois irmãos – D. Miguel e D. Pedro – e os seus exércitos, corporizando duas conceções opostas de sociedade. O primeiro tinha do seu lado os que procuravam manter o antigo sistema absolutista que entendia que o rei era escolhido por desígnio divino e que só ao monarca cabia o poder. Do outro, os que, por inspiração das ideias liberais que varriam a Europa desde as Revoluções Americana e Francesa, defendiam como princípios basilares a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Para eles, o rei era mandatado pelo conjunto da sociedade, não por Deus, cabendo-lhe um papel de mediador.

Mas para entendermos este acontecimento marcante da história de Portugal temos de recuar um quarto de século.

Corte no Brasil

Em 1807, respeitando a tradicional aliança luso-britânica, Portugal recusou participar no Bloqueio Continental decretado por Napoleão Bonaparte. O país foi, pouco depois, invadido por tropas francesas. Para evitar cair nas mãos de Napoleão, a família real e toda a corte portuguesa – num total de cerca de 15 mil pessoas – retirou-se para o Brasil. Com esta operação, inédita em toda a história universal, a corte pôde continuar a governar a partir do Rio de Janeiro.

O território português foi vítima de três invasões francesas que foram expulsas pelas tropas luso-britânicas. Apesar da ameaça napoleónica estar afastada, a família real não mostrava sinais de querer regressar à metrópole.

Esta situação propiciou a revolução de 24 de Agosto de 1820, no Porto. De cunho liberal, a revolta criou as condições necessárias à criação da Constituição de 1822 e exigiu o regresso da corte a Portugal. O monarca D. João IV regressou ao país, deixando no Brasil o seu filho mais velho, D. Pedro, como regente, tendo este – como sabemos – acabado por proclamar a independência do Brasil.

Em Lisboa, D. João VI aceitou jurar a Constituição que limitava o rei a um papel simbólico. No entanto, morre quatro anos depois. O herdeiro ao trono era D. Pedro, entretanto proclamado imperador do Brasil. Seguia-se D. Miguel que, no entanto, era adepto confesso do absolutismo. Após difíceis negociações, a solução encontrada foi D. Pedro abdicar do trono português em favor de sua filha Maria da Glória, então com sete anos. Através da Carta Constitucional de 1826, que substituiu a Constituição de 1822, D. Pedro procura conciliar as fações absolutista e liberal, deixando o seu irmão D. Miguel na regência até que D. Maria da Gloria atingisse a idade necessária para se casarem.

No entanto, pouco depois, D. Miguel deu o dito por não dito: convocou cortes tradicionais, anulou a monarquia constitucional e fez-se coroar rei absolutista.

Exército Libertador

Entretanto, do outro lado do Atlântico, D. Pedro acaba por abdicar do trono brasileiro em favor do seu filho, Pedro II do Brasil, e decide liderar um movimento a favor da restauração da monarquia constitucional em Portugal.

Os liberais concentram-se na ilha Terceira, nos Açores – único território português que escapou à submissão miguelista –, organizando o chamado “Exército Libertador” que reuniu cerca de 7 500 homens.

A 27 de junho de 1832 uma esquadra de 60 navios, liderada por D. Pedro, partiu dos Açores rumo ao continente. Acabaram por desembarcar entre Lavra e Perafita, no concelho de Matosinhos.

Não tendo encontrado resistência, na manhã do dia seguinte, entraram no Porto pelo largo do Carvalhido (hoje, praça do Exército Libertador) e ocupam rapidamente a cidade. Relatos entusiásticos dão conta de que os soldados traziam hortênsias na boca das espingardas, sendo saudados por mulheres às janelas, vestindo de azul e branco, as cores liberais.

Julgando estar perante um exército muito mais poderoso, na véspera, os absolutistas haviam retirado do Porto. Nas semanas seguintes, foram montando posições que impediam o movimento dos liberais fora da cidade.

Porto: praça de guerra

Nesse momento, D. Pedro percebe que a vitória do liberalismo não seria imediata e que, ao contrário do esperado, não se registavam levantamentos pelo país em apoio da sua causa. Decide criar linhas defensivas em torno da cidade. As linhas liberais começavam na Quinta da China, junto ao rio Douro, em Campanhã, iam até a Aguardente (Marquês) e Carvalhido, a norte, terminando nas proximidades da Senhora da Luz, na Foz do Douro. A sul do rio Douro, apenas a Serra do Pilar estava fortificada.

Por sua vez, os miguelistas começaram também a montar uma série de redutos ao longo da margem esquerda do Douro e contornando cidade pelo norte. Os redutos foram equipados com peças de artilharia que vão fustigando a cidade quase diariamente.

Todos os dias pela manhã, D. Pedro IV saía da sua residência para a habitual ronda pelas linhas de defesa, para se inteirar, no local, do evoluir do conflito. Era conhecida a sua simplicidade, a facilidade de contacto com a população e a frugalidade com que vivia.

Uma das grandes ofensivas absolutistas à cidade ocorreu em 29 de setembro de 1832, dia em que se celebra o arcanjo são Miguel, epónimo do rei absolutista. Para motivar os seus soldados, D. Miguel prometeu aos seus soldados o saque da cidade.

Quando se soube no Porto que a tropa miguelista tinha recebido autorização para saquear a cidade a seu bel-prazer, os portuenses acorreram em massa a apoiar os liberais. Afinal já não era só um regime político que estava em causa, era também – e para o portuense comum isto seria bastante mais motivador – a integridade dos seus próprios bens. A partir daí, a identificação do Porto com o ideal de D. Pedro será total.

Com o decorrer do tempo, a situação na cidade deteriorava-se a um ritmo galopante. Não havia mantimentos suficientes para o exército e para alimentar a população sitiada. Todas as árvores da cidade haviam já sido abatidas para suprir as necessidades de lenha. Pelas ruas e pelos campos abundavam cadáveres em putrefação, constituindo terreno fértil para a proliferação de doenças infectocontagiosas. Em meados de 1833, a cólera propagou-se pela cidade sitiada, ceifando 3621 vidas.

Entretanto, chega também à cidade o capitão da marinha de guerra Charles Napier, contratado em Londres para ajudar a causa liberal. Foi Napier que veio a pôr em prática o projeto de abertura de uma segunda frente de batalha. O plano não era novo, mas em vez de se atacar Lisboa, como estava inicialmente previsto, a nova estratégia consistia em atacar o Algarve de surpresa.

O esquadrão naval comandado por Napier desembarcou 2500 soldados liberais em Monte Gordo e Cacela. Tomado o Algarve, rapidamente empreenderam o caminho em direção à capital através do Alentejo. A 24 de julho, entram em Lisboa e, no dia seguinte, D. Pedro deixa o Porto em direção a Lisboa, ocupada já pelas tropas liberais do duque da Terceira, com os navios de Napier ancorados no Tejo.

Poucos dias depois, D. Miguel e o seu Estado-Maior retiram também para o Sul. O cerco foi finalmente levantado, não sem antes as tropas absolutistas incendiarem os armazéns de vinhos do Porto em Gaia, em que se perderam 18 mil pipas de vinho do Porto e largas centenas de pipas de aguardente.

Mas D. Pedro gozou por pouco tempo a vitória da sua causa. Padecendo de uma tuberculose contraída durante o cerco, o Rei-Soldado acabou por sucumbir no dia 24 de setembro de 1834, com apenas 35 anos de idade.

Coração de D. Pedro

Um mês depois da morte do esposo, D. Amélia tornou pública a última vontade do marido em doar o seu coração à heroica cidade do Porto, como prova da sua gratidão aos portuenses. E o coração deveria ficar depositado na igreja da Lapa, por ter sido esta a igreja frequentada por D. Pedro durante todo o período do cerco.

No dia 5 de fevereiro de 1835, a última vontade de D. Pedro foi concretizada. O vapor Jorge IV entrou na barra do Douro e atracou na Ribeira, onde era aguardado pelas autoridades civis e militares da cidade e pelo provedor e mesários da Ordem da Lapa. Um cordão contínuo de tropas estendia-se da Ribeira até ao largo da Lapa. Milhares de pessoas, vestindo de luto carregado, acompanharam o cortejo e assistiram às cerimónias. O momento em que o coronel Baltasar de Almeida Pimentel, camarista do rei, faz a entrega à cidade da urna de prata contendo o coração de D. Pedro ficou eternizado num dos baixos-relevos existentes na base da estátua equestre da praça da Liberdade.

A pequena urna foi depositada dentro de um caixão de mogno. Ao presidente da Câmara, o represente de todos os portuenses, foi confiada a chave. Para guardar o caixão construiu-se um mausoléu de granito, na capela-mor da igreja da Lapa.

O corpo de D. Pedro foi sepultado no panteão dos Braganças, na igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. Em 1972, nos 150 anos da independência do Brasil, os restos mortais do primeiro imperador brasileiro foram trasladados para a cripta do Monumento à Independência, localizado no Museu do Ipiranga em São Paulo, no Brasil. Desde essa altura, a única parte do corpo de D. Pedro IV em Portugal é o seu coração, na igreja portuense da Lapa.

 

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.