A centenária Avenida dos Aliados

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Foto: Alberto Marçal

A chamada “sala de visitas” do Porto é um espaço contínuo que abarca uma avenida (Aliados) e duas praças (Liberdade e Humberto Delgado). Aqui se comemoram as grandes efemérides – da Passagem de Ano às vitórias do Futebol Clube do Porto –, têm lugar concertos e manifestações políticas. No entanto, se excluirmos a praça da Liberdade, este logradouro, amplo à escala da cidade, é relativamente recente: 100 anos, apenas. Antes de 1916, este espaço estava preenchido pelos arruamentos e dezenas de prédios que constituíam o antigo Bairro do Laranjal.

«No primeiro dia do mês de fevereiro de 1916, sexto ano da República, nesta cidade do Porto e praça da Liberdade, às dezasseis horas, estando presentes sua excelência, o senhor presidente da República, doutor Bernardino Luís Machado Guimarães, e os excelentíssimos senhores presidente do Governo e ministro das Finanças, doutor Afonso Augusto da Costa, e ministros do Fomento e da Instrução, presidente do Senado da República, general da Divisão, governador civil do distrito do Porto, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e presidente da Comissão Executiva e vereadores desta Câmara, autoridades civis e militares e demais cidadãos que este auto assinam, procedeu-se, perante grande concurso de povo, à cerimonia da inauguração das obras da “Avenida da Cidade”, arreando-se a primeira pedra do cunhal sudoeste do edifício que tem servido de Paços do Concelho desde 1817 […]. Esta avenida, que ligará a Praça da Liberdade com a Praça da Trindade, é mandada construir pela excelentíssima Câmara Municipal do Porto […]. Para constar se lavrou o presente que por todos vai ser assinado e dele se tirará uma cópia para ser enviada ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, ficando este original no Arquivo do Município» – assim reza a ata da Câmara Municipal do Porto de 1 de fevereiro de 1916.

Mas tudo tinha começado cem anos antes, em 1816, quando, desembolsando um pouco mais de 31 contos de réis, a Câmara Municipal do Porto adquiriu um palacete setecentista na frente norte da então chamada Praça Nova. Para instalação dos serviços da edilidade, o edifício foi sujeito a obras de remodelação, sendo coroado com a estátua de um guerreiro, intitulada “O Porto”, propositadamente esculpida para o efeito.

Na verdade, por essa época, a praça era já um local de certa importância. A proximidade de três importantes mosteiros – dos Loios, dos Congregados e das monjas de São Bento de Ave-Maria –, o facto de se encontrar na encruzilhada de ligações entre os bairros ocidental e oriental e junto às saídas da cidade para norte, contribuíram para tornar este largo num importante polo comercial.

A extinção das ordens religiosas, em 1834, leva à venda em hasta pública dos antigos mosteiros dos Congregados (que ocupava a frente nascente da praça) e dos Loios (frente sul). Em consequência, vão-se abrindo aqui estabelecimentos comerciais de prestígio – relojoarias, bancos, hotéis, cafés, farmácias e livrarias –, bem como escritórios de advogados, consultórios médicos e redações de jornais.

Na segunda metade do século XIX, a praça torna-se o ponto de encontro da fina-flor da cidade. No seu centro é colocada a estátua equestre de D. Pedro, fundida com o metal derretido das peças de artilharia do Cerco do Porto. Em seu redor são colocados bancos de jardim, erguidos candeeiros de iluminação e plantadas árvores. Em 1882, a Câmara do Porto decide calcetar a praça recorrendo a pequenas pedras de calcário e basalto, justapostas em faixas de cor alternadas – a conhecida “calçada portuguesa”. A praça tornara-se num dos locais mais aprazíveis do Porto. A abertura do tabuleiro superior da ponte Luís I, em 1886, e a chegada do comboio à estação de São Bento em 1896, vieram reforçar a importância da praça e a sua influência sobre a envolvente regional.

Um boulevard portuense

Foto: Teófilo Rego

Por essa altura, começam a chegar ao Porto os ecos das profundas transformações que se operavam em Paris, por iniciativa do barão Haussman, com a abertura dos grandes boulevards. De tal forma que, pelo final do século XIX, entre os círculos pensantes do Porto, generaliza-se a ideia de que o centro cívico era demasiado exíguo, falando-se da necessidade de se rasgar uma grande avenida central.

Em 1889, o engenheiro Carlos Pezerat apresenta à Câmara um projeto propondo o rompimento de uma ampla avenida ligando a praça da Liberdade à igreja da Trindade. Seria um grande “passeio público”, com uma larga placa central, com árvores e lagos. O lado poente da nova avenida seria ocupado por diversos edifícios ligados à administração pública, a construir de raiz: governo civil, câmara municipal, biblioteca, museu, corpo da guarda e bombeiros.

Em 1915, foram os próprios técnicos da Câmara a elaborar um projeto para a abertura da “Avenida da Cidade”. Tratava-se de uma via com 55 metros de largura que, tal como o plano anterior, propunha a ligação da praça da Liberdade à da Trindade. Mas, como novidade, este projeto procura diferenciar o espaço da praça da Liberdade do da avenida. Ou seja, a avenida é traçada com uma largura menor do que a da praça, valorizando-se os cunhais arredondados dos edifícios que, a poente e a nascente, fariam o arranque da avenida. Tal princípio iria perdurar.

O projeto foi apreciado pela Comissão Municipal de Estética, da qual faziam parte o arquiteto Marques da Silva e um ilustre arquiteto inglês que se encontrava no Porto a convite da Câmara, Barry Parker. Será a este arquiteto inglês, paladino do conceito da cidade-jardim, que a Câmara vai encarregar de elaborar um novo plano da avenida.

Barry Parker vai propor uma avenida como um espaço comercial e de passeio. Teria uma ampla placa central ocupada por vegetação e pérgulas. O edificado seria composto por prédios baixos que, ao nível do piso térreo, teriam uma arcada que daria acesso a estabelecimentos comerciais.

O projeto de Barry Parker foi aprovado e as suas ideias mestras observadas: a avenida em “forma de bacalhau”, a clara identificação das praças da Liberdade e do Município (hoje, do General Humberto Delgado), o eixo central unindo a estátua de D. Pedro com o centro da fachada da nova câmara, a localização do edifício dos paços do concelho e o traçado das ruas que o ladeiam.

No entanto, o edifício da Câmara Municipal que hoje temos nada tem a ver com o idealizado por Barry Parker. O arquiteto da cidade-jardim propunha um edifício de apenas dois pisos de estilo neoclássico que permitisse, a quem subisse a avenida, ver a torre da igreja da Trindade por detrás, criando a ilusão de pertencer ao próprio edifício da câmara. Para além dos paços do concelho, o projeto de Barry Parker foi também totalmente desvirtuado no que diz respeito à arquitetura dos edifícios que ladeiam a avenida.

Embora reconhecessem a validade do traço urbanístico proposto, a administração camarária da época e os seus técnicos mais conceituados – com formação francesa e uma clara preferência pelas beaux-arts – não se identificam com a contenção anglo-saxónica proposta por Barry Parker. As suas expectativas inclinavam-se claramente para um estilo mais ornamentado e exuberante.

Cem anos de avenida

Foto: Foto Guedes

A 1 de fevereiro de 1916, com a presença do presidente Bernardino Machado, dava-se início à demolição do antigo edifício da Câmara Municipal, inaugurando-se a construção da avenida, primeiro chamada “da Cidade” ou “Central”, depois da Primeira Guerra Mundial, “das Nações Aliadas”, e, mais tarde, apenas “dos Aliados”.

Do arquiteto Marques da Silva são os projetos dos dois monumentais prédios que marcam o arranque da avenida – o da sede da seguradora “A Nacional” e o do edifício “Pinto Leite” – que definem claramente a separação entre a praça da Liberdade e a avenida dos Aliados, como era intenção de Barry Parker.

No período que medeia entre as duas guerras mundiais, irão sendo progressivamente edificados quase todos os edifícios da nova avenida. Haverá liberdade para cada arquiteto propor o estilo que entender. Apesar disso, a avenida terá uma arquitetura bastante coerente, com fachadas a alternar entre o ecletismo ao gosto fin-de-siècle até à chamada art-déco que resultou do estilo difundido a partir da Exposition des Arts Décoratifs, realizada em 1925 em Paris.

Em 1929, no início da placa central da avenida, inaugura-se a escultura “Juventude”, mais conhecida como “A Menina Nua”, do escultor Henrique Moreira com pedestal do arquiteto Manuel Marques e, em 1932, “Abundância” ou “Os Meninos”, um pouco mais acima, dos mesmos autores.

A monumentalidade da nova avenida obrigou também à reformulação da frente urbana da velhinha praça da Liberdade. Com a exceção do edifício das Cardosas e do da Casa Navarro, todos os restantes foram reconstruídos ou, pelo menos, viram as suas fachadas profundamente alteradas.

Recusada a proposta de Barry Parker para a nova sede da autarquia, foi realizado um concurso público, da qual sai vencedor o arquiteto António Correia da Silva. A construção do edifício inicia-se em 1920 mas só é inaugurado em 1957.

Para além dos serviços do Estado – Paços do Concelho, Banco de Portugal, Caixa Geral de Depósitos, Correios (bastante mais tarde) –, na nova avenida e no seu entorno instalam-se as sedes dos principais jornais, de bancos privados, de companhias de seguros e de diversas empresas. Consultórios médicos, escritórios de advogados e engenheiros, ateliês de arquitetos, cafés, confeitarias e outros estabelecimentos comerciais de prestígio – todos buscam instalar-se por aí.

Em 2004, mercê da construção da linha D do Metro do Porto – que previa a abertura de uma estação em plena avenida dos Aliados –, é encomendado aos arquitetos Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura a requalificação de todo o eixo urbano. Recusando a sequência praça-avenida-praça tão caras a Barry Parker e a Marques da Silva, Siza Vieira contrapôs um espaço único, uma grande praça da cidade. Para tal, entre outras medidas, propõe a utilização de um só material de revestimento de pavimento, procurando introduzir um fator de união visual de todo o espaço. Siza propunha ainda a deslocação da estátua equestre de D. Pedro IV e sua rotação de 180 graus, o que acabou por não acontecer. O projeto foi muito contestado, mas acabou por ser concretizado quase na íntegra. Apesar de já ter passado uma dúzia de anos, muitos portuenses continuam hoje a lamentar o desaparecimento da calçada portuguesa e dos espaços ajardinados da placa central que foi pavimentada com placas de granito.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.