Boavista – como evolui um topónimo?

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Quinta da Boavista [Joaquim Cardoso Vitória Vila Nova, 1833]

No Porto, o topónimo “Boavista” aparece normalmente associado a uma rotunda e à longa avenida que a liga ao mar, concluída em 1917. No entanto, o nome tem uma origem bem mais remota – tem, pelo menos, três séculos – e foi pela primeira vez aplicado a um local bastante mais distante. Vamos saber mais…

Boavista foi o nome dado no século XVIII a uma quinta que ficava junto da atualmente chamada Praça da República, durante muito tempo conhecida como Campo de Santo Ovídio. A designação primitiva do largo advinha de uma antiga capela de invocação daquele santo, nascido na Sicília e que foi martirizado em Braga. A capela localizava-se à face da antiga estrada, de origem romana, que ligava o Porto a Braga e que hoje é constituída pelas ruas dos Mártires da Liberdade, Antero de Quental, Vale Formoso, etc.

A Quinta da Boavista era a maior propriedade existente dentro dos limites urbanos do Porto, prolongando-se para norte e para sul, com jardins, pastos e campos de cultivo, chegando à Rua de Cedofeita e ao Largo do Mirante (hoje Praça do Coronel Pacheco).

Dos Figueiroas ao fim da quinta

Pertenceu inicialmente ao desembargador João Carneiro Morais que a vendeu, em 1726, a João Figueiroa, alto funcionário do reino, que lá mandou construir um palacete e magníficos jardins.

Em 1784, a família Figueiroa cedeu gratuitamente à Câmara do Porto uma franja de terreno, a norte da sua propriedade, onde foi aberta uma rua, ligando o topo noroeste do Campo de Santo Ovídio a Águas Férreas. Este novo arruamento – retilíneo – recebeu o nome da quinta e continua a chama-se, até hoje, Rua do Boavista.

Por sucessivas alianças matrimoniais e sucessões, a Quinta do Boavista acabou por ficar nas mãos dos condes de Resende. À época, era considerada a mais agradável residência nobre do Porto. Um portão coberto permitia a entrada na quinta, para quem viesse do Campo de Santo Ovídio. Uma pequena alameda, ladeada pelas cocheiras e cavalariças, dava acesso ao palácio – cujo risco, embora não esteja documentalmente comprovado, alguns autores atribuem a Nicolau Nasoni. O edifício apresentava uma fachada simétrica, de grande qualidade e equilíbrio formal. Nas traseiras, uma escadaria dava acesso aos jardins. Daqui se contemplava uma magnífica e ampla vista que se estendia até ao mar, fazendo jus ao nome da quinta.

A Quinta da Boavista ficava próxima da Igreja da Lapa, onde funcionava, ao lado, o Colégio da Lapa. Na adolescência, aqui estudou Eça de Queirós que desenvolveu uma grande proximidade com a família detentora da propriedade.

Amigo de Luís – o herdeiro do título de conde de Resende – e de Manuel – que viria, também, a receber o título, em virtude da morte prematura do irmão mais velho –, Eça de Queirós frequentou assiduamente a quinta e o palácio, acabando por se apaixonar por Emília, irmã de Luís e Manuel. Após cinco meses de noivado, acabaram por contrair matrimónio em 1885, na capela particular do solar.

No entanto, poucos anos mais tarde, esta propriedade iria desaparecer definitivamente. Por iniciativa dos próprios proprietários, em 1892, iniciou-se um processo que viria a culminar na alienação da quinta. Foi retalhada em 144 lotes, vendidos por valores que oscilaram entre os 750 mil réis e um conto e 250 mil réis, apenas acessíveis às bolsas mais abonadas da cidade. Esta nova rua aristocrática – a Rua de

Álvares Cabral – rasgou a quinta a meio, obrigando à demolição do belíssimo palácio. Apesar de alguns desmandos arquitetónicos, entrementes cometidos, esta rua ainda hoje mantém um ar elegante que nos remete para os finais do século XIX e inícios do seguinte.

Rua, avenida e rotunda

Foto: Rotunda da Boavista
Porto.pt

Extinto neste local, o topónimo “Boavista” permaneceu bem vivo e em crescimento em paragens progressivamente mais distantes. De Águas Férreas, a Rua da Boavista foi sendo prolongada para ocidente, sempre mantendo o mesmo traçado retilíneo.

Nas proximidades da Capela do Bom Sucesso, abriu-se um grande largo circular: a Rotunda da Boavista. Em 1876, foi para aqui transferida a feira de São Miguel, vinda da Cordoaria, aumentando a frequência do local. Para isso também construíram os transportes públicos. Na rotunda foi construída a Estação da Boavista, da Companhia Carris de Ferro do Porto, estabelecendo a ligação entre o centro do Porto e a Foz do Douro. A “máquina” – pequeno comboio a vapor –, entre 1878 e 1914, descia a Avenida da Boavista até à Fonte da Moura, seguindo daí para sul por entre pinhais e campos agrícolas, até à Foz.

Também na rotunda, em 1889 e 1895 existiu uma praça de touros, Real Coliseu Portuense, que teve pouco sucesso. A decisão de ajardinar a praça e de erguer no seu centro um obelisco comemorativo da Guerra Peninsular foi tomada alguns anos antes da instauração da República. O Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, projeto do escultor Alves de Sousa e do arquiteto Marques da Silva, tornou-se no elemento identificador e estrutural desta praça.

Da rotunda, o longo arruamento – já com um perfil mais amplo de avenida – prosseguia o seu caminho para ocidente. Até meados do século XX a avenida era uma autêntica alameda com duas filas de frondosos plátanos que acabaram por ser sacrificados para facilitar o trânsito automóvel.

Em 1917, mantendo o traçado retilíneo, a Avenida da Boavista vence o seu tramo final, unindo a Fonte da Moura ao Castelo do Queijo, junto ao mar. Terminava, assim, uma jornada iniciada 133 anos antes e a 6,5 quilómetros de distância.

A Boavista é, desde há algumas décadas, um nova centralidade económica e cultural da cidade do Porto. Ao longo da rua, da rotunda e da avenida da Boavista há edifícios culturais, escritórios, hotéis, zonas comerciais e de habitação — muitas delas luxuosas. Boavista é também o nome de uma equipa de futebol, nascida em 1903, resultado de um diferendo entre portugueses e ingleses sobre o melhor dia para a prática desportiva.

O que poucos hoje saberão é que o topónimo Boavista teve a sua origem num outro local e num outro tempo.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.