As invasões francesas e a tragédia da ponte das barcas

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

Já passaram mais 208 anos, mas as invasões francesas e o seu rol de pilhagens, violações e assassinatos permanecem bem vivos na psicologia coletiva dos portuenses. Até aos dias de hoje não se sabe, ao certo, quando terão perecido na Tragédia da Ponte das Barcas mas, nas Alminhas da Ponte, ardem continuamente velas em sua memória. Vamos saber mais…

A rainha louca e o príncipe temeroso

No início do século XIX, Portugal vivia uma situação atípica. Devido à sua doença mental, a rainha D. Maria I havia sido declarada incapaz de governar por uma comissão de 17 médicos. A contragosto, o jovem e inseguro príncipe D. João acaba por assumir a função de regente do reino.

Numa altura em que os ventos de mudança varriam a Europa, Portugal vivia ainda numa bonomia que perpetuava as velhas tradições da monarquia absolutista. Mas não por muito tempo…

Na Catedral de Notre-Dame, em Paris, a 2 de dezembro de 1804, na sua cerimónia de coroação, Napoleão Bonaparte surpreende tudo e todos ao retirar a coroa das mãos do papa Pio VII – que viajara de Roma propositadamente para o efeito –, coroando-se a si próprio como imperador dos franceses. Napoleão deixa assim claro que não se submeteria a ninguém.

Imediatamente decreta o Bloqueio Continental, proibindo o acesso aos portos europeus dos navios do Reino Unido. O objetivo era asfixiar a economia britânica.

Tradicional aliado da Inglaterra, Portugal demora a acatar as ordens de Napoleão, o que o leva a preparar um ataque. No Palácio de Fontainebleau, próximo de Paris, Napoleão reúne-se com o ministro espanhol Manuel de Godoy, firmando um tratado que divide Portugal entre os dois países: o Entre Douro e Minho constituiria o “Reino da Lusitânia Setentrional” e seria entregue à filha de Carlos IV de Espanha; Algarve e Alentejo constituiriam o “Principado dos Algarves” e seria governado por Manuel de Godoy; as províncias de Trás-os-Montes, Beira e Estremadura ficariam para Napoleão. O destino de Portugal estava traçado.

A ver navios

Acordada a repartição do território entre franceses e espanhóis, em 1807 o general Jean-Andoche Junot cruza a fronteira na Beira Baixa e marcha em direção a Lisboa. O objetivo era aprisionar a família real portuguesa e apoderar-se dos navios fundeados no Tejo.

No entanto, com o auxílio britânico, nas vésperas da chega das tropas francesas à capital, uma grande esquadra transportara a família real e os principais dignitários do reino em direção ao Brasil. Uma vez chegado a Lisboa, Junot fica literalmente “a ver navios”.

Estabelecido o poder em Lisboa, os restantes pontos do país são também ocupados por tropas francesas e espanholas.

O general francês François Jean Baptiste Quesnel ocupa a cidade do Porto. Senado e Câmara do Porto recebem o general, seguindo ordens da regência para não hostilizar o invasor. Para sustentar o exército de ocupação, Quesnel impõe um imposto extraordinário à cidade, o que causa grande descontentamento. Os intendentes de polícia Tamboreau e Perron começam a perseguir e reprimir os portuenses descontentes.

Entretanto, eclode uma revolta em Espanha que põe fim à sua colaboração com a França. Tal encoraja o príncipe regente D. João, a partir do Rio de Janeiro, a declarar formalmente guerra aos franceses a 9 de maio de 1808. Pouco depois, o povo do Porto levanta-se contra o ocupante. Quesnel é preso pela guarnição espanhola que, pouco depois, se retira do Porto. No forte de São João da Foz é içada a bandeira nacional e eclodem revoltas em Viana, Guimarães, Caminha e um pouco por todo o Norte. É criada a Junta Provisional do Governo Supremo, presidida pelo bispo do Porto, D. António de São José de Castro.

O maneta

Recebendo ordens de Junot, o general Louis Henri Loison, conhecido como “o Maneta”, sai do seu aquartelamento em Almeida e marcha em direção ao Porto. Incessantes ataques da guerrilha impedem-no de chegar ao seu destino. Sucedem-se as represálias francesas, com o recurso frequente às pilhagens e à violência contra as populações.

Incapaz de garantir o controlo do território, Junot concentra as suas tropas em torno de Lisboa. A 1 de agosto de 1808, tropas inglesas chefiadas pelo general Arthur Wellesley – mais tarde, duque de Wellington –, desembarcam na foz do rio Mondego. Travam batalhas contra os franceses em Roliça e no Vimeiro, que vencem, levando-os a assinarem um armistício e a retirar do país.

Inconformado com a derrota perante um adversário tido como fácil de vencer, Napoleão rapidamente ordena nova invasão de Portugal, desta feita a cargo do marechal Nicolas Jean-de-Dieu Soult. Entrando pela Galiza, o marechal devia tomar o Porto e depois continuar para Lisboa.

A 12 de março de 1809 Soult entra por Chaves, conquista Braga oito dias depois e posiciona-se às portas do Porto, em São Mamede de Infesta, no dia 27 do mesmo mês. A defesa da cidade foi confiada ao bispo D. António de São José de Castro que, apressadamente, consegue erguer uma linha defensiva com paliçadas e peças de artilharia. Na cidade reina o pânico e a desordem. A suspeita de colaboracionismo ou jacobismo, por mínima que fosse, podia levar qualquer pessoa a ser perseguida e sumariamente executada.

No dia 28 de março, o marechal Soult envia uma carta ao bispo pedindo que entregasse a cidade sem resistência, já que as suas intenções eram boas e que apenas pretendia livrar o país dos ingleses. O bispo retira-se para a Serra do Pilar e, às 6 de manhã do dia seguinte, inicia-se o ataque entre a Aguardente (atual Praça do Marquês de Pombal) e o Monte Pedral. As fracas linhas defensivas cedem, dando-se a debandada geral. Soult conquista o Porto em poucas horas. Em pânico, a população precipita-se sobre a ponte das barcas, na expectativa de atingir a ilusória segurança da margem sul do Douro. Não se sabe ao certo se a ponte cedeu ao peso da multidão ou se, na sua retirada, terão sido as próprias tropas do bispo a removerem as tábuas centrais da ponte, para atrasar o avanço dos franceses. Seja como for, foram centenas, possivelmente milhares, os portuenses que pereceram.

Como a cidade ofereceu resistência, foi sujeita a três dias de saque pelos vencedores.

Alminhas da Ponte. Foto de António Amen.

O rei Nicolau

Triunfante, Nicolas Soult instala-se no Palácio dos Carrancas (hoje Museu Nacional de Soares dos Reis). E, à revelia das instruções que recebera, não segue para Lisboa. Sonha em tornar-se rei da Lusitânia Setentrional. Lança petições para que o assunto fosse levado a Napoleão, cria um jornal fantoche que não lhe poupa louvores, organiza sopas dos pobres, elimina portagens na travessia do Douro, assiste a peças no Teatro de São João e esforça-se por cair nas boas graças das principais famílias portuenses. Apesar disso, estalam revoltas um pouco por todo o Norte do País e desenvolvem-se ações de guerrilha sistemática contra os franceses. Estes respondem com uma repressão brutal.

A 22 de abril de 1809, Arthur Wellesley e o seu exército desembarcam em Lisboa e iniciam a sua marcha para norte. Para dificultar a travessia do Douro, os franceses destroem a ponte das barcas. Mesmo assim, tendo chegado à margem sul do Douro, na alvorada de 12 de maio os ingleses conseguem transpor o rio, um pouco a montante da Serra do Pilar, ocupando rapidamente toda a cidade do Porto.

A Soult não restou mais do que retirar apressadamente. Mais do que retirada, tratou-se de uma verdadeira debandada. Consta que a refeição que fora confecionada para Soult, acabou por ser aproveitada por Wellesley e os seus oficiais, que também se instalaram no Palácio dos Carrancas. Para evitar cair nas mãos dos exércitos anglo-portugueses, o exército francês é forçado a empreender uma penosa travessia pelas serras, abandonando saque e material de guerra pesado para conseguir chegar a território espanhol. A cidade pôde, finalmente, respirar de alívio.

Portugal ainda seria alvo de mais uma invasão – a cargo do marechal Massena – que teve a mesma sorte das anteriores. Os franceses acabaram por retirar com baixas muito pesadas, perseguidos pelas tropas anglo-lusas. Abandonaram Almeida, seu último reduto em Portugal, em maio de 1811.

Para além das consequências nacionais e internacionais, as invasões francesas deixaram uma cicatriz profunda no Porto. A Tragédia da Ponte das Barcas é, seguramente, a catástrofe que mais marcou a psicologia coletiva dos portuenses até aos dias de hoje. Nas Alminhas da Ponte ardem continuamente velas em memória dos que pereceram há mais de 208 anos. E quando além é acometido por uma infelicidade, o povo continua a lembrar o temido Loison. “Foi para o Maneta!” – lamentam.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.