As carmelitas descalças

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

A Livraria Lello localiza-se no “Bairro das Carmelitas”, assim chamado por ter sido erguido no local onde anteriormente existiu o Convento de São José e Santa Teresa das Carmelitas Descalças. Convento e respetiva cerca localizavam-se, aproximadamente, no interior do espaço hoje delimitado pelas ruas de Santa Teresa, a norte; Cândido dos Reis, a nascente; Carmelitas, a sul; e das praças de Guilherme Gomes Fernandes e de Gomes Teixeira, a poente. A atual Galeria de Paris corta longitudinalmente o que foi o interior do convento.

A cidade dos conventos

Ao longo dos séculos, foram vários os conventos femininos em funcionamento na cidade do Porto e arredores. O primeiro foi o de Corpus Christi ou São Domingos das Donas, construído em 1345, na margem esquerda do rio Douro. Em 1416, foi a vez das franciscanas de Santa Clara se estabelecerem junto do então postigo dos Carvalhos do Monte (mais tarde, Porta do Sol) das Muralhas Fernandinas. Em 1518, D. Manuel I fez construir o Mosteiro de Ave-Maria, das beneditinas (onde hoje se encontra a estação ferroviária de São Bento). Dezassete anos mais tarde, surgia mais um convento feminino na cidade, o das franciscanas de Monchique, em Miragaia. Por fim, já no início do século XVIII, estabeleceram-se as carmelitas descalças, no Olival, local hoje mais conhecido como Cordoaria.

A Ordem do Carmo, originalmente chamada Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, surgiu no final do século XI, no Monte Carmelo (nas imediações da atual cidade de Haifa, em Israel). Dois séculos mais tarde, surgem as primeiras referências a mulheres associadas a esta ordem. O aumento progressivo de devotas levou o papa Nicolau V a promulgar, em 1452, a “carta fundacional” da ordem segunda, baseada numa forma de vida contemplativa, sem participação em atividades pastorais. Com o ingresso de Santa Teresa no mosteiro de Ávila, em 1535, operou-se uma reforma que deu origem às Carmelitas Descalças.

No caso do Porto, data de 1701 a fundação do Convento de São José e Santa Teresa das Carmelitas Descalças. A nova casa religiosa das Carmelitas seria construída na proximidade do convento dos padres carmelitas (onde atualmente está o Comando Territorial do Porto da GNR), instalado oitenta e cinco anos antes. O convento começou a ser erguido logo no ano seguinte, sendo a igreja terminada em 1732.

Austeridade extrema

O Convento de São José e Santa Teresa das Carmelitas Descalças foi, sem sombra de dúvida, o mais austero e despojado de todos os edifícios conventuais da cidade. O historiador oitocentista Sousa Reis faz-nos um retrato de como seria:

«Da vida doméstica daquelas religiosas nada transpirava para fora e apenas na sua extinção, quando foi visitada pelo povo, é que se conheceu ser extrema a austeridade que presidia a tudo. As celas eram sobremodo acanhadas e escuras, notando-se mesmo que essa pouca luz lhe era transmitida por frestas voltadas para o claustro interno. Eram muito poucas e raras as janelas externas e essas mesmas seguras por fortes grades de ferro. Ainda internamente foram vedadas as vistas com muito estreitas gelosias fixas nos seus umbrais, para que tudo aumentasse as provações destas mulheres. A casa conventual em tudo era mesquinha e acanhada e quase nenhuma ventilação tinha. Não se via riqueza, custo de obra, escolha de materiais ou outro qualquer sinal que indicasse grandeza, antes pelo contrário se enxergava por toda a parte humildade e pouca despesa no fabrico desta».

A igreja, de planta em cruz latina, tinha a orientação canónica nascente-poente, mas com a cabeceira virada para oeste. A porta principal era lateral, para que o coro ficasse diante do altar-mor, tal como era habitual nos conventos femininos e podemos ver, por exemplo, na Igreja de Santa Clara. Em frente dessa porta lateral havia um pátio cujo portão dava para a rua das Carmelitas, entrada de servidão geral do convento.

Tudo mudou com a entrada do exército liberal no Porto, a 9 de julho de 1832, que causou um profundo mal-estar nas casas religiosas da cidade. Aproveitando uma noite invernosa, a 19 de janeiro de 1833, as poucas religiosas que ainda viviam no convento das Carmelitas, decidiram fugir da cidade com destino a Braga, trocando os seus hábitos por roupas vulgares. Não foram, no entanto, muito longe. Nas imediações da igreja da Lapa, foram intercetadas por uma patrulha do exército de D. Pedro. Descoberta a sua identidade, as religiosas foram rapidamente entregues à guarda do Mosteiro de São Bento da Ave-Maria.

O antigo convento dá lugar a um novo bairro

Uma vez abandonado, o convento passou para a posse do Estado. Nos setenta anos que se seguiram, este espaço teve um vasto leque de ocupações e acolheu variadíssimas instituições: aqui estiveram os correios, funcionou um colégio, uma secretaria do Ministério Público, uma esquadra da polícia, as oficinas da mala-posta, uma estação telegráfica, a direção de Obras Públicas, uma associação académica, a Sociedade Filarmónica Portuense, o Teatro de Variedades, um armazém de cereais, para além de cavalariças.

Tendo efetuado um estudo para construção de um grande mercado coberto neste espaço, em 1903, a Câmara do Porto, única proprietária do convento, decide demolir a antigo edifício conventual e erguer aí o Bairro das Carmelitas, um espaço urbano com forte pendor comercial. Inspirado nos modelos de cidades como Bordéus, Milão e Bristol, projetou-se também uma grande galeria coberta por vidro e ferro. A designação escolhida foi precisamente “Galeria de Paris”. Como sabemos, a rua foi construída, mas a sua cobertura ficou adiada para as calendas gregas… Do antigo convento não ficaram mais do que os topónimos de dois arruamentos: Rua das Carmelitas e Rua de Santa Teresa.

Parte significativa do Bairro das Carmelitas ficou a dever-se ao traço do arquiteto municipal José Marques da Silva que aqui aplicou as referências arquitetónicas da École des Beaux-Arts que então dominava o gosto em Portugal e no resto da Europa. As construções atestam a funcionalidade comercial e residencial do, então, novo bairro. Os edifícios incluíam uma área da loja, com um ou dois andares, e habitação nos pisos superiores.

Foi também neste novo bairro que os irmãos José e António Lello adquiriam um lote, sensivelmente no local onde anteriormente existia a entrada de servidão geral do convento. Encomendaram o projeto ao Eng.º Francisco Xavier Esteves para a sua livraria que abriria portas a 13 de janeiro de 1906 e que seria considerada uma das mais bonitas do mundo.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.