Afonso Martins Alho: o mercador tornado diplomata

Categoria

Guias do Porto Histórias do Porto

Autor

Livraria Lello

No Porto, é sobejamente conhecido o provérbio «fino que nem um alho», mas melhor seria se fosse «fino que nem o Alho», já que Alho era o apelido de Afonso Martins. Este mercador do Porto foi responsável por negociar com o rei inglês o primeiro tratado comercial firmado entre a Inglaterra e Portugal. Ou talvez melhor, entre a Inglaterra e os mercadores portugueses. Vamos saber mais…

Recuperar da Peste Negra

Estávamos em 1352 e Portugal procurava recompor-se da Peste Negra que o atingira quatro anos antes, dizimando entre um terço e metade da população. Neste contexto de desespero, el-rei D. Afonso IV – filho de D. Dinis e da rainha Santa Isabel – enviou o mercador portuense Afonso Martins Alho para negociar um acordo comercial com o monarca inglês Eduardo III.

Quando se encontrou pela primeira vez com o português em Londres, Eduardo de Windsor reinava há 25 anos. Tinha sido coroado com apenas 14 anos, logrando restaurar a autoridade real depois do desastroso reinado do seu pai. Conhecido pelos seus sucessos militares, Eduardo III transformou o reino da Inglaterra numa das maiores potências militares da Europa da época. Declarando guerra à França, Eduardo III foi o grande responsável pelo início da tristemente célebre Guerra dos Cem Anos.

Por essa época, Portugal procurava aumentar as suas transações comerciais, tanto com a bacia mediterrânica, como com o Norte da Europa, esforçando-se por conseguir maior proteção para os seus mercadores. Cidade mercantil por excelência, em meados do século XIV, o Porto consolidava a sua posição de exportador de produtos como vinho, azeite, fruta, cera, mel, couros e madeiras. A Inglaterra era um destino preferencial para a exportação destes produtos.

O resultado do primeiro encontro de Afonso Martins Alho com o monarca inglês Eduardo III não merece destaque especial. O que trouxe de Londres não foi mais do que um salvo-conduto anual passado pelo soberano inglês para todos os mercadores e navios portugueses nos portos britânicos.

O primeiro tratado anglo-luso

Inconformado com os modestos resultados obtidos, Afonso Martins Alho regressou a Londres no ano seguinte, desta feita como procurador das comunidades de mercadores das cidades portuárias do Porto e de Lisboa e procurador plenipotenciário do rei D. Afonso IV de Portugal. Após intensas negociações, a 20 de outubro de 1353, foi firmado um tratado comercial constituído por oito artigos, válido para 50 anos. Os mercadores portugueses obtinham o comércio livre em todas as cidades e vilas, bem como direitos de pesca nas costas da Inglaterra e da Bretanha.

Foi o primeiro tratado comercial anglo-luso que se revelaria bastante benéfico para os interesses nacionais, ajudando a escoar a excedentária produção nacional e garantindo novos bancos de pesca.

Foi, na verdade, um tratado muito relevante para a economia do reino e o protagonista maior foi um homem do Porto. Por ter logrado concluir um tratado tão favorável, Afonso Martins Alho caiu nas boas graças dos seus conterrâneos que lhe deram fama de negociador astuto, criando a expressão que nós hoje utilizamos «fino que nem um alho» – se bem que seria mais apropriado dizer «fino que nem o Alho».

Afonso Martins Alho dá hoje nome a uma rua do Centro Histórico do Porto que – com os seus meros 30 metros de extensão – alguns dizem ser a mais pequena da cidade. Liga a Rua das Flores à de Mouzinho da Silveira e durante décadas foi o endereço da Adega do Olho, uma das mecas da gastronomia portuense mais típica e tradicional. O estabelecimento encerrou definitivamente as portas há poucos meses, vitimado pela pressão urbanística e turística que se faz sentir nesta zona da cidade.

Manuel de Sousa

Sobre o autor:

Manuel de Sousa (1965) é licenciado em Ciências Históricas, tem uma pós-graduação em Marketing Digital e um mestrado em Turismo. Desenvolveu atividade profissional ligada à área empresarial, nomeadamente à Comunicação e ao Marketing. Procurando aliar o seu interesse pela história local com as redes sociais, criou a página “Porto Desaparecido” no Facebook, cujo sucesso lhe valeu a atribuição da Medalha Municipal de Mérito pela Câmara Municipal do Porto. Em janeiro de 2017, publicou o livro “Porto d’Honra”, da editora A Esfera dos Livros, que reúne 15 episódios históricos da cidade do Porto.